Repensando a vida


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Aprecio panetone e gostaria de comer à vontade e durante o ano todo, mas engorda e, para o bem da minha saúde, não quero aumentar os quilos a mais que já tenho. Tenho de render-me à natureza do meu organismo. As mulheres gostariam de não passar pelos incômodos da TPM, da menopausa; os homens, pelos da andropausa. Os pais adorariam ter garantias de que os filhos não vão sofrer, muito menos exercer, más influências. Sonhamos com um mundo melhor, com tudo no seu devido lugar. Tem muitas coisas na vida, no mundo, que por nossa vontade seriam diferentes. Temos planos, sonhos. Para nós, para as pessoas que amamos, para o mundo. Mas nem todos se realizam, e a razão é simples: muito do que a gente almeja contraria a própria natureza. Às vezes bate a frustração, e com ela vem a sensação de que a vida não se importa com os nossos sonhos, e então nos pegamos maldizendo a vida, brigando com o mundo, sentindo-nos vítimas. E lamentamos. Todavia, ao invés de lamentar, devemos ver se não estamos tomados por uma concepção errada da existência. Tentamos mudar a vida para satisfazer nossos anseios, alterar o mundo para deixá-lo ao nosso feitio, mas em muitos casos nós é que temos de mudar os desejos para adequá-los à vida, pois não são poucas as vezes em que a raiz dos nossos sofrimentos, das nossas frustrações, é a incompatibilidade do sonhado com o real, ou seja, entre a vida que projetamos, da forma que gostaríamos que fosse, e a vida como ela é. Sonhar, ter aspirações, é da natureza humana, mas ao mesmo tempo há que se ter senso da realidade, o que, vale dizer, não são coisas inconciliáveis. Não é possível mudar a vida. O que se pode mudar é o modo de viver, de fruir a vida, o bem supremo que nos foi concedido. Tê-la é a máxima ventura. Acho que a maneira de aproveitar melhor a vida consiste em encaixar nossos objetivos e metas dentro das limitações que a natureza impõe, mas aproximando ao máximo a vida como ela é da vida como gostaríamos que ela fosse. Em outras palavras: os anseios e desejos têm de estar na órbita do possível. Nada de desejar o impossível. Não digo que se deve resignar a tudo; há situações que podemos e devemos lutar para melhorar em vez de assumir o papel de “injustiçados pela vida”. Tentar adivinhar o que a vida quer da gente, ter dúvidas sobre o que esperar da vida, é perda de tempo. A vida simplesmente se doa. Aproveitemo-la, buscando conhecer e aceitar as regras naturais. Segundo o Budismo, as principais causas do sofrimento são a ignorância, o ódio e a ganância. Ensina o Dalai-Lama que a ignorância, na concepção budista, é “um equívoco fundamental de percepção da verdadeira natureza do eu e de todos os fenômenos” (A arte da felicidade - um manual para a vida, Ed. Martins Fontes). Penso, porém, que em muitos casos a infelicidade decorre não da falsa percepção dos fenômenos naturais, mas sim da sua não-aceitação. Quem se entristece ao perceber os efeitos da passagem do tempo, por exemplo, fica assim não por desconhecê-los, mas por se recusar a aceitá-los. Não precisa ser profundo conhecedor da vida para saber que tudo se transforma. Nosso corpo, até certa altura da vida se forma; a partir de então entra em processo inverso. Com o tempo envelhecemos fisicamente e o corpo perece. Quem não sabe disso? Quantas pessoas, entretanto, não se iludem tentando lutar contra? Não conheço, todavia, nenhuma que tenha vencido. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida – paulopereiracosta@uol.com.br

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