Que tal carregar sacolas?


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Acompanho, em certas manhãs semanais, minha mulher, mãe e ocasionalmente filhos e amigos à barraca do pastel do japonês na feira livre. É quase uma necessidade e, pelo menos até aqui, não tinha contado nada ao Dr. Joaquim Ribeiro, o médico amigo que me acompanha. Certamente ele vai intervir após ler este texto, me tirando o doce prazer das frituras semanais e me cobrando por algo mais. Mas vamos em frente. Vou aos pastéis dos "tios" japoneses como único exagero que ainda me permito. Quem anuncia em minha casa que é dia de ir à feira é a Jully, uma poodlezinha que acaba de completar 9 anos. Acorda muito cedo, pede para ir fazer xixi e cocô na área onde minha mulher a ensinou a fazer suas necessidades e volta, serelepe, derrubando cobertores e lençóis, cobrando "hoje é dia de pastel na feira". Dizemos a todo mundo que ela come apenas ração, mas gosta também da massa do pastel "de queijo" dos "tios", de pão-de-queijo (adora!!!) e de partes de pizza de... "queijo". Por vezes acho que nossa "pet" é uma ratazana, mas todo mundo, inclusive gente que mora muito longe, jura que é uma "cã". Aceito. Vamos a pé, Jully... à frente, rápida. Quase chegando à tradicional concentração de barraquinhas que frequento e que o Sidnei quer remover para outro lugar, acontece de novo: sou abordado por três garotos de tenra idade, sempre os mesmos, se podem "guardar o carro". Sabem que estou a pé – já somos velhos conhecidos – mas, força do hábito, perguntam assim mesmo. Jully pára, dá uma medida nas crianças e prossegue. Também já as conhece. Após o pastel, volto. Repete-se a rotina: os meninos me veem e mandam: "sobrou uma moedinha?". Digo "não". Eles sabem que vou sempre dizer "não", mas arriscam. Aí, vem a segunda pergunta: "e por `vigiar` o carro?". Olho. Sorrio. Dia destes, coloquei-me a pensar mais seriamente. Pus-me a observá-los. São fortes. E são muito jovens. E pedem sem qualquer constrangimento. Automaticamente. E, ainda pior: tem quem põe a mão no bolso e dá. Preciso fazer duas observações. Uma: porque existem aqueles que dão, eles permanecem lá, pedindo. Tenho certeza que há adultos que os coordenam, mas não quero entrar nesse assunto, pelo menos por enquanto. Ao ganharem, fortalecem a ideia que os "tios" e "tias" estão aí mesmo para ajudar. Ao dar, institucionalizamos naquelas crianças a facilidade de ganhar sem fazer nada. Afinal, em todas as cercanias das feiras populares, estão os "profissionais da guarda de carros", aqui e em qualquer lugar do País, mas ver crianças crescendo nesta “escola-do-faz-nada-e-ganha-assim-mesmo” me dói, dói muito, principalmente porque sei que é mais fácil enfiar a mão no bolso e dar o que pedem. Outra, e vai em forma de conselho ao jovenzinhos: por que não se oferecem a quem faz compras para levar as sacolas até o carro? Aí sim, estariam fazendo um trabalhinho decente e aprendendo que dinheiro se deve merecer. Acredito que muita gente adoraria ter os braços fortes dos meninos que hoje estão encostados ali, se doutorando em pedir esmolas, transportando pacotes, geralmente leves e fáceis de carregar. Peço muito a uns e outros? TUTELA Pensei muito antes de escrever esta coluna. Sei que os agentes tutelares vão agir após a leitura para tirar os garotos das cercanias das feiras. Ainda assim, prefiro vê-los longe da rua a permitir que se institucionalizem como pedintes. Quero vê-los crescer como homens de bem – caramba, é triste aceitar que as leis que "protegem" crianças e adolescentes têm que ser cumpridas "de qualquer jeito" apesar de sabermos que o Estado não tem estrutura, nem recursos, nem programas adequados para dar a estes "desprezados pela sorte" assistência digna. Se forem tirados e, de alguma forma, voltarem, espero que os frequentadores das feiras deixem de dar o dinheiro fácil que pedem e os estimulem a suar um pouco, carregando sacolas, para merecerem o rico dinheirinho. NÃO PREGO Não prego desobediência civil. Sou legalista – e, por isso, resolvi publicar a coluna – mas também sou a prova viva que ninguém morre ao trabalhar desde muito cedo. Comecei quando tinha de 9 para 10 anos. Já contei sobre isso aqui. Sou grato a meus pais, que me ensinaram que dinheiro precisa ser ganho por força do trabalho. Faço, para terminar, uma ode à Guardinha Mirim, que infelizmente não existe mais tal como foi concebida. Pena. Os garotos da feira, ao que me parece, beiram a idade na qual seriam aceitos pela entidade. Infelizmente, porque contei, pode ser que não tenham a chance de carregar sacolas. Nossa cachorrinha vai estranhar a ausência da voz e da presença deles, mas talvez seja melhor assim. E, POR ÚLTIMO Esta Editoria de Opinião cumprimenta os colunistas Edward de Souza e Padre José Geraldo Segantim que completam, esta semana, cem colunas publicadas neste Comércio. Daqui a duas semanas será a vez do advogado Denilson Carvalho, que escreve às quartas-feiras sobre Direito do Consumidor, atingir a mesma marca. Agradecemos também às centenas de leitores que têm se manifestado em saudação aos titulares das colunas. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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