Um ano depois de fechar suas portas na cidade, uma das gigantes do setor calçadista de Franca continua inoperante. No dia 1º de fevereiro de 2008, a Calçados Agabê parou de produzir e demitiu 500 funcionários de uma só vez. A idéia inicial de retomar parte da produção em agosto passado não se concretizou.
A direção não se arrisca a dizer quando isto acontecerá. O projeto de recuperação - proposta de pagamento de dívidas e retomada dos negócios -ainda não foi aprovado pela Justiça. 365 dias depois, os trabalhadores dispensados ainda lutam para receber uma dívida próxima de R$ 2,7 milhões.
Apenas a imponência da sede situada na Avenida Doutor Ismael Alonso y Alonso faz lembrar os velhos tempos, quando mais de 3 mil funcionários produziam 10 mil pares/dia. Só restou a fachada.
Os galpões estão fechados. A produção se resume a algumas amostras. Do antigo exército de trabalhadores, hoje só sobraram oito pessoas, divididas nos setores administrativo, compra e desenvolvimento. “Não parei de trabalhar. Estamos desenvolvendo produtos e administrando, mas a gente fica imaginando como isto aqui era cheio e como está hoje. Sem dúvida, dá aquele sentimento de vazio”, disse o diretor da empresa, Miguel Heitor Betarello.
A Agabê mantém uma filial em Aracati (CE), onde produz 2,5 mil pares/dia e emprega 392 pessoas. A direção pretendia retomar a produção em menor escala em Franca em agosto, mas adiou os planos por ter de suprir as necessidades da fábrica localizada no Nordeste.
Betarello espera poder religar as máquinas um dia na cidade, mas evita fazer projeções. “Sempre encontro funcionários que saíram daqui e que me perguntam: ‘Miguel, quando é que vamos voltar?’ Isto nos dá uma vontade de começar tudo de novo e nós vamos fazer isto um dia. Só não posso falar quando”.
Como o plano de recuperação judicial solicitado pela Agabê ainda não foi aprovado, Miguel Betarello não quis falar sobre a atual situação econômica da empresa. Sobre a dívida com os funcionários, disse que alguma novidade poderá surgir no mês que vem. “Foi acertado com o sindicato que, provavelmente, o juiz vai liberar alguma coisa a partir de março”.
A maior parcela da dívida se refere à multa de 40% do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para todos os trabalhadores.
Alguns têm ainda saldo de férias e parte do 13º salário para receber. O presidente do Sindicato dos Sapateiros, Paulo Afonso Ribeiro, disse que tem enfrentado dificuldades para negociar o pagamento com a direção da Agabê. “Eles prometeram que parte do dinheiro arrecadado com a venda de um dos barracões iria para os trabalhadores, mas isto não aconteceu. Por isto, vamos fazer uma assembléia no dia 14 de fevereiro com os trabalhadores para tratar deste assunto”. No encontro, vão avaliar a possibilidade de o sindicato ingressar com ação judicial para garantir o recebimento das verbas rescisórias.
GIGANTES EM QUEDA
Pouco antes da Agabê fechar as portas, outras três grandes empresas também encerraram ou reduziram drasticamente suas atividades em Franca. Em setembro de 2006, a Calçados Pé de Ferro transferiu sua produção para a cidade de Cascavel (CE), que fica a 45 quilômetros de Fortaleza. Na época, deixou de produzir 1,5 mil pares e demitiu quase cem trabalhadores.
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Dois meses depois, a Samello fechou as portas e dispensou 390. A empresa está em processo de recuperação judicial. A produção está parada e a diretoria negocia imóveis para quitar as dívidas trabalhistas.
A Sândalo começou a diminuir seu ritmo de produção ao longo de 2006. Em 19 de janeiro de 2007, anunciou o fechamento da fábrica na cidade. Foram dispensados 260 funcionários. Hoje, seus produtos são fabricados por empresas licenciadas.
No fim do ano passado, a Mariner dispensou quase 200 funcionários e a Amazonas outros 380. Apesar do corte, as empresas seguem trabalhando.
Colaborou Renata Modesto
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