Vila pode se tornar Patrimônio da Humanidade


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Riqueza histórica Vista geral  da antiga estação São Paulo Railway Company (SPR). que ligava a região ao Porto de Santos, permitindo a exportação do café produzido no interior de São Paulo
Riqueza histórica Vista geral da antiga estação São Paulo Railway Company (SPR). que ligava a região ao Porto de Santos, permitindo a exportação do café produzido no interior de São Paulo
Isolada em meio a montanhas, a impressão que se tem em Paranapiacaba quando a tarde vai embora, sob a espessa neblina, é de estar em alguma comunidade no interior da Inglaterra, cinza, silenciosa. Paranapiacaba deve ser visitada por dois motivos principais. Um deles por se tratar da primeira vila ferroviária do Brasil, construída na segunda metade do século 19, com capital, requinte e mãos inglesas. O outro motivo está na condicional, mas prestes a ser concretizado. Paranapiacaba integra a lista dos sítios brasileiros candidatos ao título de patrimônio mundial da humanidade, concedido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Caso a indicação se confirme, o que está previsto para o final de 2010, a vila inglesa seria o primeiro patrimônio da humanidade dentro do Estado de São Paulo e o único ferroviário no Brasil, que hoje conta com 17 sítios com essa distinção. Incrustada no alto da Serra do Mar, a meio caminho entre São Paulo e o litoral, a Vila de Paranapiacaba oferece um turismo ambiental forte e bem estruturado, mas é na sua história onde reside toda a sua riqueza. Construída com capital inglês a partir de 1860 por Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, a Vila foi o ponto de ligação que a São Paulo Railway Company (SPR) precisava para deixar o planalto e chegar ao porto de Santos, permitindo com isso a exportação do café produzido no interior paulista, transporte que, até então, era feito sobre os lombos dos burros. Durante sete anos, a construção de um complicado sistema de descida da serra foi considerada uma das principais obras de engenharia ferroviária em todos os tempos. Até hoje, mesmo abandonados, seus túneis e viadutos distribuídos por apenas oito quilômetros de trilhos permanecem reconhecidos como obras de arte da construção civil. Em 1867, o funicular é inaugurado. Nesta modalidade, uma composição de carga ou passageiros só descia a serra se houvesse outra para subir, fazendo um sistema de freios e contrapesos. Com o incremento do transporte para o porto, uma segunda linha é inaugurada, começando a funcionar em 1901. Anos depois, em 1946, com o fim da concessão oficial aos ingleses, a administração da ferrovia passou para a Rede Ferroviária Federal. Mudou também o nome, que passou a ser Estrada de Ferros Santos-Jundiaí. Nas décadas posteriores, a vila de Paranapiacaba experimentou seus piores dias. O patrimônio arquitetônico deixado pelos ingleses por pouco não foi posto abaixo. O esquecimento e processo de deterioração em que entrou o transporte ferroviário no País não pouparam a vila inglesa. Ex-funcionários da RFFSA continuaram nas casas mesmo após a privatização da malha. Não havia qualquer preocupação com a preservação da memória dos áureos tempos em que tudo funcionava como um perfeito relógio, de cuidar de um lugar que representou marcos importantes em questões de urbanismo e saneamento básico numa época em que isso significava muito pouco. A situação só começou a mudar em 2002 quando a prefeitura de Santo André, no ABC Paulista, resolveu comprar a Vila por R$ 2,1 milhões, tirando-a das mãos da União, que era quem hipoteticamente administrava o lugar. A assinatura da compra foi o último ano administrativo do prefeito Celso Daniel (PT), sequestrado em 18 de janeiro daquele ano e morto dois dias depois. [FOTO2] A iniciativa deu origem à subprefeitura de Paranapiacaba e Parque Andreense, com consequente início da revitalização de casas e prédios históricos da vila. Artistas e artesãos foram convidados a se instalar no local e a manter as casas centenárias. Hoje, a administração municipal tenta consolidar um calendário turístico cujo principal atrativo é seu famoso e disputado festival de inverno. Mais recentemente, a vila ferroviária que carecia de seu maior cartão postal passou a contar com um trem que leva turistas para uma viagem entre a Estação da Luz, no Centro de São Paulo, e Paranapiacaba. Apesar do muito que ainda falta ser recuperado para tentar devolver o esplendor que as primeiras épocas da São Paulo Railway Company mostravam, a simplicidade da Vila começa a ser descoberta por gente de todas as idades, por saudosistas dos tempos dourados da ferrovia ou pelos mais jovens, que vão reconhecendo com os olhos as histórias deixadas por seus avós.

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