As democracias atuais se constituíram essencialmente pela representação, e seus representantes são, em tese, os melhores para exercerem os três poderes. Entretanto, no passado, alguns ficaram intrigados com a ideia de representantes e questionaram porque o povo não poderia decidir diretamente sobre suas vidas em sociedade, sem eles. Certos pensadores disseram que as maiorias se formam de maneira irracional e, como tal, o povo decidiria equivocadamente.
Se conhecessem Franca, citariam como exemplo o caso da economia local, observando que nas últimas décadas a maioria dos trabalhadores contratados foi demitida nos meses de novembro e dezembro, sendo recontratada depois de vários meses. Se os trabalhadores pudessem decidir, provavelmente não aceitariam as demissões e o resultado seria negativo para a economia, segundo afirmam os industriais calçadistas francanos.
Outros pensadores afirmaram que não era somente a população que atrapalhava o “correto” funcionamento da economia, mas também o governo. Toda vez que o governo interferisse na oferta e demanda do mercado os resultados seriam novamente negativos. Portanto, nem a população, nem o governo deveriam se intrometer nos rumos da economia.
Como resultado desses impasses, os empresários podem contratar e demitir aleatoriamente, repassando para os ex-funcionários apenas uma pequena parte do que eles mesmos produziram na empresa. Em outras palavras, o empresário não terá, jamais, nenhuma responsabilidade após a demissão, e o trabalhador terá de procurar algum meio para sobreviver nos próximos meses.
Os trabalhadores marginalizados com a dinâmica da economia local migram aos poucos para outras áreas, como a informalidade ou o trabalho ambulante. A maioria dos carrinhos de lanche da cidade têm, como condutores, algum ex-operário ou um trabalhador que ainda cumpre parte de sua jornada em fábrica. O poder público local ao invés de regulamentar o setor informal para que exista coerência na utilização dos espaços públicos e controle dos setores empresariais que já atuam na área, proíbe drasticamente o funcionamento dos bolotas.
Assim, o trabalhador francano, tradicionalmente esquecido dentro das fábricas e frequentemente punido pela ingerência da indústria local e pelos órgãos públicos municipais, ainda tem de pagar pela arrogância dos representantes do Estado, mentores da força da lei, de novo, em detrimento dos trabalhadores. Para que haja democracia, é indispensável ouvir e entender todos os envolvidos, principalmente os marginalizados. Daí, tem que surgir a luz.
Rogério Machado Limonti
Graduando em Gestão de Políticas Públicas (USP), Secretário de Finanças do PCB de Franca
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