Vende-se uma chapa


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Andava meio perdido sobre o que pensar da "fresquinha" decisão do fechamento "a prazo" de bolotas aqui na província. Só pude entender melhor o fato ao deparar com uma placa de “Vende-se uma Chapa”, na semana passada, posta pelo boloteiro que sempre preparou meu lanche ao longo de 9 anos e que era legalmente estabelecido. Decepcionado em saber que não poderei saborear meu preferido x-lombo que saía sempre no capricho e com ingredientes de primeira, e mais ainda por não poder conviver com o bom astral do proprietário do trailler e suas piadas, servidas enquanto aguardava sua esposa preparar "o" típica e tradicional “bolota”. Cheguei, desta forma, bem perto do problema e senti na pele o dilema vivido por aquela família. Tentando ser forte e não deixando transparecer abatimento o comerciante disse que “era um cidadão do mundo e que aprendera muito cedo sobre a constante arte da sobrevivência numa vida de poucas oportunidades". Como retirante que sempre se orgulhou da sua terra natal, disse-me ele, "nunca deixou de lado os valores e princípios apreendidos, transmitidos de pai para filho como tradição". Faz questão de deixar bem claro que de onde veio a "palavra ainda tem valor, e o sujeito que não sustenta o que diz não é considerado `cabra-homem`; e que iria honrar a decisão tomada em família: a de ir embora e reconstruir sua vida longe dos embates humilhantes sentidos com a veemente ação no teatro da vida protagonizado por pequenos atores...”. O plano em trazer a mãe de 75 anos para morar junto dele foi suspenso. O aniversário da filha de 15 anos, num primeiro momento, não poderá mais ser realizado. O aluguel está pago até o final do mês quando se mudam. O telefone agora usado é público e fica logo na esquina de casa. A vida pregou mesmo uma peça nesse bom homem. Sonhos interrompidos abruptamente sem nem mesmo lhe oferecerem chance "justa" para poder se reerguer e ficar no páreo. Mesmo com todo esse embaraço não conseguiram lhe tirar a alegria de viver e a de brincar com algo tão sério. Divertindo-se com o infortúnio, disse-me o homem que "talvez ainda daria tempo de mudar de ramo e dar a volta por cima, sacudir a poeira, dar uma guinada de 360 graus na situação retomando os estudos e, quem sabe, se empregar num emprego público, usar terno e gravata e ter direitos e benefícios vitalícios fantásticos!". Ou ainda, fazer um curso e virar uma espécie de radialista fanfarrão... Ou ficar mais religioso e ensinar às almas perdidas o caminho da "salvação". Pensou, inclusive, em tornar-se dirigente de alguma entidade; estratégia que o faria ganhar projeção e notoriedade. Elencados os possíveis caminhos a serem seguidos à mudança radical de área, não agüentou. Desmanchou-se em risos contagiantes sem maiores preocupações, que durou alguns bons minutos. Retomado o fôlego e também a razão, seu rosto marcado pelos quase 50 anos ficou sério. Disparou: “não reúno condições necessárias para os perfis apresentados. Deixo isso para os que nasceram para serem o que são. Escolho o meu caminho e o sigo dignamente. Lamento pelas medidas desproporcionais travadas por outras pessoas contra mim, um simples batalhador”. Ricardo Galo Veríssimo Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

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