Pit Bull: amor ou fúria?


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O recente ataque de um cão da raça pit bull a três pessoas ocorrido no início da última semana na Vila Aparecida e que deixou uma aposentada gravemente ferida reacendeu a polêmica sobre a criação dos animais da raça, que se originou na Inglaterra no século 19. Não são raros os relatos sobre ataques de pit bulls que resultam em vítimas fatais ou que ficam com graves sequelas, mas os criadores destes cães afirmam com veemência que a agressividade dos animais é fruto do estilo de criação adotado pelo dono. As principais características do pit bull são a agilidade e a força. A arcada dentária do animal se encaixa perfeitamente e a extensão da boca vai praticamente de orelha a orelha, o que garante um impacto de 200 quilos na mordida. (Veja nos quadros abaixo a comparação entre as características do pit bull e um labrador, considerado um cão mais dócil e recomendado para se ter em casa). O médico veterinário Mário José de Castro Pereira disse que cães de guarda, entre eles o pit bull, já possuem um instinto de ataque em sua personalidade. "Estes animais são como uma bomba-relógio, que podem explodir a qualquer momento e partir para cima das pessoas, inclusive os donos". Um artifício que pode deixar os pit bulls mais agressivos é a aplicação de anabolizantes para deixá-los com aspecto mais robusto. "O dono que faz isso comete uma irresponsabilidade, pois os hormônios podem causar alterações no comportamento do animal", disse Pereira. O estudante Fábio Moreira Leite, proprietário da fêmea Hannah, uma pit bull de dois anos, disse que o animal nunca desobedeceu às suas ordens e creditou os casos de ataques aos proprietários que não criam os cães adequadamente. "Não só o pit bull, mas qualquer cachorro que ficar trancado em casa e não receber atenção pode ficar agressivo e atacar o próprio dono. Se escapar, certamente pode morder alguém na rua". Mesmo confiando no comportamento de seu animal, Fábio não deixa a prevenção de lado quando faz passeios com Hannah. "Sempre coloco focinheira e enforcadeira, pois muita gente tem medo de pit bull e chega a atravessar a rua para não passar perto", disse o estudante, que frequentemente leva o animal para sua chácara. "Esta raça precisa de espaço para gastar toda a energia que tem". Uma lei estadual estabelece que os donos dos animais só podem conduzir cães das raças pit bull, rottweiler e mastim napolitano em locais públicos ou em centros de compras fechados com o uso de coleira, enforcador, focinheira e guia de condução que deve ter no máximo 2 metros de comprimento. A multa para quem descumprir a lei é de cerca de R$ 125 reais. O problema é que a lei não definiu de quem é a responsabilidade de fiscalizar o uso dos equipamentos, então, ainda há muitos criadores que desrespeitam as exigências. Os pitbulls são resultante de sucessivos cruzamentos entre cães bulldogs (boiadeiros) e terriers, animais cujas principais características eram força, no primeiro caso e agilidade e rusticidade, no segundo. Das várias experiências surgiram animais que, ao longo dos tempos, tiveram inúmeras denominações. Assim foram chamados de staffordshire bull terrier, pit bulldogs ou pit terrier. Os cruzamentos tinham um objetivo claro: criar um animal para lutar em rinhas de cães e touros, que os ingleses apreciavam. Os antecessores do pitbull eram as estrelas do bull baiting, um `espetáculo` semelhante às touradas, muito populares na Inglaterra. Com um touro solto em uma arena, o objetivo do cão era minar a resistência do oponente, levando-o ao solo com mordidas nas orelhas, nariz e pescoço, em uma clara demonstração de força e agressividade. A modalidade foi banida do país dos lordes em 1835. Logo depois, os cachorros mais agressivos foram levados para os Estados Unidos onde, novamente, passaram por cruzamentos seguidos, a fim de ganhar altura e peso, que resultaram na derivação american staffordshire bull terrier ou american pit bull terrier, como o conhecemos hoje. Os maiores erros que um pretendente a dono de um animal dessa raça pode cometer é confinar o cachorro em pequenos espaços, não promover sua socialização com outros cães e pessoas desde cedo e não exercitá-lo. "Este cão precisa de espaço para se movimentar, precisa gastar energia correndo, fazendo exercícios. O dono que tem um pit bull criado como um poodle certamente vai ter problema", disse o tratador e criador de cães Joel Cursino Júnior, 40, de Franca. Para ele, o pit bull é uma raça diferenciada das demais, onde há, tanto no temperamento do cachorro quanto no comportamento do dono, fatores que resultam na sua agressividade. "A raça é complicada e, apesar de ver exageros por aí, não deixo de dar razão quando ouço alguém dizer que é contra o cão, porque só quem foi atacado sabe o que é isso", disse Cursino. "Mas o cachorro não pode ser malhado quando há muita irresponsabilidade do proprietário na sua guarda e criação". Com o know-how de quem cria cães há 14 anos, ele diz que, como cão de guarda, o limite de paciência do pitbull é menor e o comportamento, imprevisível, mesmo quando comparado a raças reconhecidamente agressivas, como rottweilers, por exemplo. Na propriedade onde adestra, cria e hospeda cães, Joel Cursino disse não aceitar cães dessa raça. "Tive vários pit bulls de clientes aqui e conheço muitos que são dóceis, mas não teria um desses para cuidar da minha casa ou conviver com minha filha. Além disso, as pessoas se ressentem de deixar seus cães sabendo que existem pit bulls por perto". Para Beatriz Paiva, 61, criadora e ex-presidente do clube American Pit Bull de São Paulo, antes de comprar um pit bull, o interessado deve procurar um canil registrado, conhecer os pais do animal e fazer todas as perguntas possíveis. "Essa é a melhor forma de evitar problemas".

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