<p>O armador Nezinho do Limeira tirou este mês o título do Campeonato Paulista 2008/2009 do Franca Basquete. A conquista, inédita para Limeira, era a chance do tricampeonato seguido e a 12º conquista francana na competição. Só por isso a torcida já teria motivos de sobra para odiá-lo. O rancor vem de outros tempos. </p>
<p>Nezinho defendeu Ribeirão Preto e ganhou seguidos títulos e confrontos em cima de Franca, sempre deixando claro que a vitória sobre o rival tinha sabor especial. Passou a imagem de criador de caso. Hoje, a relação entre o armador e o elenco francano se tornou tumultuada e notória, independente do clube em que estiver. Já sua rivalidade com Helinho, ídolo local, é declarada. E em seu episódio polêmico mais recente, ele chutou uma placa de publicidade no terceiro jogo da final do Campeonato Paulista este ano, no Poliesportivo. Há dois anos o clube francano até cogitou contratá-lo, mas a torcida chiou. </p>
<p><br />Wellington Reginaldo dos Santos, 28, tornou-se Nezinho ainda menino, quando sua mãe lhe deu o apelido. Nascido em Araraquara, o armador trocou o futebol pelo basquete quando brincava no Sesi daquela cidade. Curiosamente, foi um ex-treinador francano, o Tom Zé, quem o levou para Ribeirão Preto, em 2000. A partir daí, ele começou, de fato, sua carreira profissional no esporte. </p>
<p><br />Nezinho conquistou 11 títulos em cinco clubes do Brasil. O bom desempenho o levou à Seleção Brasileira. No entanto, o jogador só piorou a fama de encrenqueiro. Em 2007, tornou-se símbolo da geração derrotada no Pré-Olímpico de Las Vegas, nos EUA. O que ficou foi a imagem de sua recusa em participar do finalzinho do jogo entre Brasil e Uruguai após ser chamado pelo técnico Lula Ferreira. Na época, Leandrinho (armador que joga nos EUA) revelou o motivo: “Ele ficou chateado por não ter entrado antes e então não quis jogar”. </p>
<p><br />Nezinho concedeu entrevista ao Comércio da Franca em dois tempos: minutos antes de entrar em quadra no quarto jogo da final do Paulista e logo depois da conquista do título. Falou da “perseguição” que sofre por parte da torcida francana, de como gosta de jogar na “capital do calçado”, revelou qual o seu segredo para já ter tirado dois títulos do Franca Basquete dentro do Ginásio Poliesportivo (Brasileiro de 2006/2007 e o Paulista 2008/2009) e o que acha do novo cenário do esporte no País, com a criação de um novo campeonato brasileiro. </p>
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<p><strong>Comércio da Franca - Sua rivalidade com o elenco do Franca Basquete e com a torcida é notória. Este título de campeão paulista tem um sabor especial?<br />Nezinho -</strong> A equipe de Franca valoriza muito (a competição). É difícil jogar contra ela e a gente correu atrás esse campeonato todo para conseguir o título. Depois perdemos em casa (na primeira partida da série melhor-de-cinco) e ficamos de cabeça quente, achando que poderíamos perder o título em apenas três jogos. É o meu sexto título individual, mas estou comemorando como nunca comemorei porque a dificuldade foi muito grande. </p>
<p><strong>Comércio - Você costuma ser um dos principais alvos da torcida francana. Como se sente jogando aqui?<br />Nezinho -</strong> A atenção aqui em mim é muito grande, mas isso às vezes também atrapalha a equipe de Franca. Eles ficam só Nezinho, Nezinho, Nezinho... Aí aparece o Shamell, o Edu, o Renato e eu sei disso. Quando eles notam, acabou o jogo. O Nezinho nem jogou, mas a equipe dele venceu. Isso é o mais importante. O que importa é o meu time vencer. Não quero fazer mais pontos, só quero vencer.<br />Aqui é onde tenho as maiores adversidades, mas é o lugar que eu mais me concentro para jogar. É o lugar que eu mais quero jogar, às vezes eu fico triste porque as pessoas não me conhecem nem um pouquinho. Sou m hostilizado na rua, no hotel. Só porque eu sou um cara vibrante e quero vencer onde estiver. </p>
<p><strong>Comércio - Se é tão difícil jogar em Franca, qual é o segredo para vencer aqui?<br />Nezinho -</strong> O segredo é trabalhar e querer vencer. Exatamente porque sempre tem muita gente torcendo contra é que eu quero mostrar o meu valor. Para isso, procuro me concentrar bem. Me preparo dois dias antes. Não falo com ninguém, nem atendo ao telefone. Você até queria falar comigo, não atendi. Podem falar: ‘o Nezinho é chato, é mala’. Não é isso. Estou concentrado porque quando entrar aqui, ninguém vai me ajudar. É muito difícil enfrentar 8 mil pessoas te xingando, hostilizando, olhando na sua cara e falando mal de você. Por isso é preciso estar muito concentrado e com Deus, sempre com Deus. Resto é resto. Pode ter 50 mil pessoas aqui, mas se você estiver focado e com Deus, nada te atinge. </p>
<p><strong>Comércio - A sua concentração é feita de que modo?<br />Nezinho -</strong> Só falo com Deus e com a minha família. Tudo isso para chegar aqui concentrado. Porque enfrentar um Pedrocão cheio não é fácil. E quando eu chego aqui não tem mãe, não tem pai, ninguém para ajudar. Vou ser só eu. </p>
<p><strong>Comércio - Você não gostaria de jogar em Franca, ao lado dessa torcida?<br />Nezinho -</strong> Jogar com uma torcida dessa seria maravilhoso. Uma vez o Hélio Rubens me ligou, mas não deu certo. Estou feliz agora. Tenho contrato de dois anos com a minha cidade, Limeira, e está perfeito para mim. </p>
<p><strong>Comércio - No meio do ano também jogando contra Franca, na final dos Jogos Abertos, você sofreu uma falta dura de Márcio Dornelles - ala do time francano - bateu a cabeça, cortou a nuca e acabou desmaiado. Seu irmão invadiu a quadra e agrediu o atleta do Franca Basquete. Como foi sua recuperação?<br />Nezinho -</strong> Fiquei desmaiado dois dias, mas hoje estou podendo jogar, sem seqüela nenhuma. Foi um ano muito difícil... Acho que só Deus mesmo para me deixar fazer o que eu gosto. </p>
<p><strong>Comércio - Dizem que você é supersticioso. Você acredita que alguma coisa possa ter influenciado na conquista do título desse Campeonato Paulista?<br />Nezinho -</strong> Eu gosto muito do número 23 (é o número do uniforme dele). No dia 21 (de janeiro, um dia antes do terceiro jogo da final do Paulista 2008/2009) foi meu aniversário e hoje, dia 23 (partida que terminou com vitória de Limeira e o título do clube sobre Franca), eu fiz um bom jogo. Mas acho que não adianta nada você ser supersticioso se você não trabalhar, não treinar, não acreditar... Se você não estiver com Deus, não chega a lugar nenhum. </p>
<p><strong>Comércio - Há o interesse do clube de Limeira em fazer de você um ídolo, uma referência. O que você acha disso?<br />Nezinho -</strong> Eu fiquei uma semana em Limeira e parecia que eu estava lá há dois anos. Totalmente adaptado. Fiz um contrato de dois anos, até o meio do ano de 2010, e o presidente do clube, Cássio Roque, já veio conversar comigo para prolongar (o vínculo). Não estou pensando em sair em hipótese nenhuma. Quero prolongar sim. Limeira é um lugar maravilhoso onde todos só querem vencer. Todos trabalham honestamente e o Cássio merece. Ele trabalha muito. Mesmo sendo presidente ele está aqui, viajou com a gente de ônibus, comeu com a gente no hotel. </p>
<p><strong>Comércio - Você acha que Limeira está perto de ter uma paixão semelhante à que existe em Franca?<br />Nezinho -</strong> É difícil. Aqui em Franca há uma tradição de 50 anos de basquete. Olha só esse ginásio, o ginásio cheio... É claro que a gente corre atrás disso. É um sonho. Vamos fazer um contrato de quatro, cinco anos lá em Limeira para termos um grande ginásio e conseguir enchê-lo. </p>
<p><strong>Comércio - Quais são as diferenças do basquete jogado em Ribeirão Preto, Assis, Brasília e em Limeira, lugares por onde você passou?<br />Nezinho -</strong> Em Ribeirão era uma situação diferente de todos os lugares. A estrutura era excelente, não há o que reclamar. Em Brasília já tivemos um pouco mais de problemas com relação a estrutura porque é totalmente fora do eixo Rio-São Paulo. Lá o basquete estava começando e o pessoal ainda não sabia trabalhar com o esporte, mas havia o interesse. Em Assis, a dificuldade era grande, mas já tinha uma estrutura. Acho que alguns lugares no Brasil estão tentando se estruturar e isso já está sendo bastante bacana para tentar melhorar nosso jogo. </p>
<p><strong>Comércio - Agora falando sobre cenário nacional e o novo campeonato brasileiro criado por 15 clubes neste ano. O que representa o Novo Basquete Brasil para os jogadores?<br />Nezinho -</strong> Acho que é uma realidade palpável. Temos a possibilidade de viver uma mudança, mas isso vai demorar uns dois a três anos porque o nível do basquete no Brasil é muito bom. O que está faltando é um pouco de organização e essa organização pode estar chegando com o Novo Basquete Brasil. Eu tenho certeza que é uma grande possibilidade de mudança e todos querem mudar. </p>
<p><strong>Comércio - O que o jogador brasileiro tem feito para mudar o cenário do esporte?<br />Nezinho -</strong> Acho que nós estamos nos preparando muito mais. Muitos jogadores estão saindo, fazendo intercâmbio e depois voltam. Melhorando cada vez mais o nível do Campeonato Brasileiro e do Campeonato Paulista. Acho que algumas atitudes de alguns jogadores devem mudar para que a cobertura da mídia seja melhor e os jogos sejam mais vistos (uma crítica indireta a uma falta que Helinho cometeu durante a quarta partida da final, no Poliesportivo. Após o título paulista, o jogador criticou o armador do Franca Basquete em entrevista no Jornal da Tarde). A pessoa em casa precisa ter um jogo agradável para assistir. </p>
<p><strong>Comércio - O que você ainda almeja no basquete?<br />Nezinho -</strong> Ser campeão em todo campeonato que eu participar e é só isso. </p>
<p><strong>Comércio - Acredita que ainda pode voltar à seleção?<br />Nezinho -</strong> Já fiz meu trabalho no Campeonato Paulista, vamos trabalhar no Brasileiro. A seleção, quando houver a convocação, vai ser conseqüência do que eu fizer no meu time.</p>
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