O quadrilátero formado pelas ruas Madre Maria Villac, Maria Laura Gomes, Joaquim Paula Marques e a Avenida Denizar Trevizani, que abrange trechos dos jardins Aeroporto III, IV e Santa Bárbara, no Complexo Aeroporto, é, atualmente, um dos pontos mais violentos da cidade. Os três assassinatos ocorridos desde o início do ano em Franca estão ligados diretamente àquela área.
Segundo moradores, traficantes de drogas e assaltantes criaram um poder paralelo e regras próprias de convivência. Recentemente foram encontradas munições de fuzil e uma submetralhadora alemã na região. A população vive com medo e respeita ao pé da letra a lei do silêncio. Sempre que ocorre um crime grave na área, as dificuldades são grandes nas investigações: ninguém sabe de nada, ninguém vê nada. E não é para menos. As ameaças são feitas e cumpridas pelos marginais.
A sequência de homicídios ocorridos no quadrilátero ou praticados por seus moradores começou em 3 de janeiro, quando o aposentado João Gabriel de Assis, 65, foi espancado por uma gangue na Rua Honório de Lima. Chegou a ter a cabeça batida contra um muro. Morreu, seis dias depois, na Santa Casa. A DIG (Delegacia de Investigações Gerais) identificou os possíveis autores, todos moradores no Aeroporto III, mas não consegue testemunhas ou provas concretas para indiciá-los.
No dia 27, o desempregado Kennedy Ribeiro, 25, foi esfaqueado cinco vezes por um conhecido na Rua Elias Limonta, Aeroporto IV, próximo a sua casa. A motivação do crime, segundo a Polícia Civil, pode estar ligada a uma dívida de drogas. O acusado está foragido.
Moradores da área teriam, ainda, praticado um assassinato cruel. Um adolescente e um menor estão detidos pela polícia, suspeitos pela morte do comerciante Silvimar Gomes Filho, 56, morador no Parque Dom Pedro. A vítima foi atingida por 15 facadas e teve os antebraços e o pênis decepados antes de ser enterrada em um sítio de sua família. Suspeita-se que pelo menos outros dois elementos participaram do crime.
Também seriam moradores no Complexo Aeroporto os integrantes de uma quadrilha apontada como responsável pelo roubo de várias propriedades rurais em Franca e na região. Uma submetralhadora de fabricação alemã foi apreendida pela polícia na Avenida Denizar Trevizani, além de porções de crack, maconha e cocaína. Dois homens foram levados para a cadeia.
A POPULAÇÃO
A dona de casa Joana* mora no Aeroporto IV há 12 anos. Segundo seu relato - concedido sob repetidas promessas de anonimato - há normas de convivência impostas pelos bandidos. Uma delas, válida entre eles próprios, é a de não praticar pequenos delitos, como furtos, nas ruas do bairro, pois tais ocorrências atraem a polícia. Quem não cumpre a “lei paralela” é punido. “Sempre que um moleque começa a aprontar no bairro é alertado e ameaçado para parar. Se insistir, apanha. Ou coisa pior. Tanto que aqui não tem roubo”, disse.
As estatísticas da Polícia Militar reforçam a tese da dona de casa. O Complexo Aeroporto apresenta números discretos nos crimes de menor gravidade. “Se eu te mostrar no mapa, você vai ver que do ponto de vista de incidência criminal lá é uma das áreas mais tranquilas da cidade”, disse o capitão Wellington, comandante da Força Tática da PM. Os dados por região, de acordo com o oficial, não podem ser revelados por questões estratégicas.
Apesar das estatísticas, a população daquela região não tem paz. Pelo contrário. Ronei* é sapateiro. Tem 23 anos. Nasceu e foi criado no Jardim Aeroporto III. Em dezembro, chegava em casa de madrugada com sua motocicleta quando foi parado na Avenida César Martins Pirajá por um grupo de rapazes que queriam saber o que ele fazia naquele local. Um deles, armado com uma espingarda. “Um moleque tava (sic) com uma “12” na mão. Sorte que um deles me conhecia e falou para deixarem eu ir. Quem duvidar, é só ir nas quebradas durante a noite e madrugada que vai ver”, afirmou. “Lá durante a noite parece dia. As ruas ficam lotadas e cheias de maus elementos”.
Questionado se a polícia se faz presente, Ronei* disse que viaturas são vistas esporadicamente, quase sempre em avenidas movimentadas, como a César Martins Pirajá e a Denizar Trevizani. “Um dia tinha gente mexendo no carro do meu irmão. A polícia demorou quase 40 minutos para chegar e quando veio foi em três viaturas”, disse. “Eles ficam espertos, porque tem pontos da região que nem o rádio deles, nem celular funcionam”.
Segundo a PM, a informação não procede e o policiamento preventivo é feito normalmente nos bairros do complexo. “Não há pontos com ausência do Estado em Franca”, disse Wellington.
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