Os 27 anos da administração do Marquês de Pombal no Brasil (1750/77) aniquilaram com a memória e o patrimônio dos jesuítas no Brasil. Ao decidir expulsar os integrantes da Companhia de Jesus de Portugal e suas colônias, em 1759, Pombal ordenou que documentos e qualquer outro tipo de registro fossem destruídos.
Assim começa a desconstrução da história de Embu das Artes, riquíssima, intrigante, extensa e apaixonante. Surgido por volta de 1554, o antigo aldeamento de Bohi teria dado, mais tarde, origem a uma vila. Na busca por índios carijós, os jesuítas partiram em direção ao rio da Prata, estabelecendo postos de apoio em suas incursões.
Dizem os historiadores, a primeira referência documental sobre as terras de Bohi data de 1607, quando Fernão Dias Paes (o Moço), Pero Dias e Braz Esteves requereram o que sobrara das terras do bandeirante Domingos Luiz Grou.
Em 24 de janeiro de 1624, Fernão Dias Paes faz a doação de sua fazenda aos padres da Companhia de Jesus, mas somente em 27 de julho de 1668, as terras do Bohy passam a pertencer definitivamente aos religiosos.
Por volta de 1690, data que até hoje é motivo de controvérsias, padre Belchior de Pontes inicia a construção da igreja de Nossa Senhora do Rosário, transferindo a imagem da santa com o mesmo nome da antiga capela para o altar onde hoje está o museu de arte sacra.
Substituindo ao padre Belchior, morto em 1719, outro religioso, Domingos Machado, constrói o anexo que serviria de residência aos religiosos e noviços da companhia, terminando as obras em 1740. Os desbravamentos, rumo à interiorização paulista, começavam, assim como começavam as expedições que chegariam às missões guaranis.
Neste contexto, a casa jesuíta de Embu era particularmente importante. Nela se fabricavam todos os móveis, utensílios, oratórios e imagens sacras necessárias aos avanços da Companhia de Jesus. Foi também a casa de Embu a escolhida dentre todas da companhia para sediar a escola de artes e ofícios dos jesuítas. Portanto, a ligação da cidade com a arte e o artesanato pode encontrar explicação antiga e histórica.
Imagens, como as encontradas no Museu de Arte Sacra, eram feitas em roca, uma construção possível a partir da combinação de madeira e arame. Com o tempo, o trabalho, antes executado quase apenas pelos religiosos, foi sendo feito pelos índios catequizados. Reza a lenda que parte dessas imagens, expostas no museu, possuem a fisionomia dos padres que moraram no convento.
Com a expulsão dos jesuítas, o aldeamento de M’Boy entrou em declínio, com os índios mestiçando-se com moradores locais ou mudando-se para outros locais. Documentos da igreja apontam para não mais que 900 “almas’”o número de moradores naquela época.
Às margens de São Paulo, e por quase cem anos, M’Boy permaneceu com atividade agrícola constituída por pequenos lavradores, fabricantes de aguardente e um comércio incipiente.
No final do século XIX, até meados da década de 40 do século passado, os carros de boi ditavam o ritmo local, levando carvão para depósitos no bairro de Pinheiros e suas proximidades. Na viagem de volta vinham carregados de tecidos, sal e querosene.
Em 30 de novembro de 1938, o então distrito de M’Boy passa a se chamar Embú, sendo o nome, de acordo com a norma gramatical vigente, grafado com acento. Foi neste ano que Mário de Andrade, aproveitando-se de sua nomeação pelo Ministério da Educação, como delegado para o Estado de São Paulo, tratou de adiantar o processo de tombamento do patrimônio jesuítico de Embu, um dos primeiros em território paulista, acelerado em função da precariedade das instalações, já naquele tempo.
A INVASÃO HIPPIE
Foi neste período que o movimento mais característico de Embu atualmente começa a tomar forma. É a partir da década de 60 que chegam e se estabelecem os primeiros artistas, vindos de diversas partes do País.
Vários deles, de diferentes correntes e aptidões, escultores, pintores, poetas, músicos, cantores e estudiosos da cultura popular encontram em Embu o lugar propício para produzir sua arte, tendência que, empiricamente, modificou até o próprio nome da cidade, hoje conhecida como Embu das Artes.
Em 2004 uma lei municipal feita ao gosto dos políticos locais, praticamente igualou, sem nenhuma base científicas, mas apenas por analogia, a idade do município ao seu vizinho, São Paulo, o que levou sua população a “comemorar” no último dia 25 de janeiro os 455 anos de existência, como os paulistanos.
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