Aos 11 anos, Rogério de Souza, 29, trocou os cadernos pela agulha e linha. Quando estava na 5ª série, interrompeu os estudos para trabalhar na banca de pesponto da tia. Há dez anos, assumiu o próprio negócio. Mesmo com a redução de serviço todo fim de ano, sua banca sobreviveu à sazonalidade do setor calçadista até 2008. Do fim do ano para cá, a situação está diferente. E pior. Suas máquinas de costura, avaliadas em R$ 4 mil, estão desligadas desde 10 de dezembro. E não há previsão de quando voltarão a produzir. “Nunca tinha parado com a banca. Antigamente não estava tão ruim. Nesta época (janeiro), já era para estar recebendo alguma coisa”.
Trabalhavam na banca, ele, a namorada e a cunhada. As duas, há quase 50 dias, desde que pararam a produção, continuam desempregadas. Rogério e a namorada de 21 anos saem de casa todos os dias em busca de emprego. Já visitaram mais de uma dezena de fábricas de sapatos mas saíram sem qualquer esperança de contratação. “Preciso arrumar um serviço. Já fui em várias fábricas e não estão ‘pegando’. Isso me desespera”. O casal não conhece outro ofício. “Não sei o que eu vou arrumar. Pago R$ 300 de aluguel e mais de R$ 90 de outras contas fixas”, disse ele. Rogério ganhava R$ 1.200 por mês e pagava R$ 600 para cada funcionária.
Rogério e as duas funcionárias são apenas três moradores de Franca que vivem o gosto amargo do desemprego desde o fim do ano. A situação atinge muito mais pessoas. Dezembro de 2008 apresentou o maior saldo negativo na geração de emprego em Franca da última década. Foram fechados 11.101 postos de trabalho, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Todos os setores tiveram redução, mas a indústria calçadista é líder. Foi responsável por 9.974 “perdas”.
O pespontador Renato Ribeiro, 34, é de Minas Gerais e trabalha em Franca há nove anos. Descontente com o setor de sapatos, pensa em deixar a cidade. “Estou até pensando em ir embora daqui porque está complicado. A gente investe em treinamento e cursos da área mas não tem retorno nem estabilidade”. No ano passado Renato só conseguiu emprego informal. A única esperança dele é conseguir uma vaga no mercado com a retomada da produção após o Carnaval.
OUTRAS VÍTIMAS
Anteontem outras estatísticas confirmaram um “dezembro negro” para os trabalhadores francanos. De acordo com a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a regional de Franca atingiu o segundo pior resultado no nível de emprego de toda a indústria de transformação paulista. A queda foi de 15,95%.
A doméstica Fátima Aparecida Pereira, 48, é uma das que tiveram um péssimo mês de Natal. No dia 26 de dezembro, foi dispensada do serviço. Trabalhava havia 11 meses numa casa de família. O emprego era sua única fonte de renda. “Não tenho ajuda nenhuma de governo. Meu trabalho faz muita falta. Se eu não trabalhar, fico sem ter o que comer”.
Os alimentos para ela e a filha de 13 anos ainda não estão em falta. Mas esse é maior temor dela. “Na minha casa, sou pai e mãe. Se continuar desempregada, vai faltar comida. Já pensou ter uma filha em casa, totalmente dependente, sem ter o que dar para ela?”, disse ela, que tem experiência em fábrica de cartonagem, mas não consegue recolocação no mercado de trabalho.
O salário da doméstica era R$ 500 por mês. Com o acerto após a demissão, recebeu R$ 1 mil. O dinheiro já foi todo usado. “Paguei o IPTU e outras contas. Reservei R$ 250 para continuar pagando as despesas mas acabou”. Fátima não está conseguindo honrar seus compromissos fixos. “Meus talões de água e luz do mês de janeiro estão atrasados. Os de fevereiro estão para chegar e eu não tenho como pagar”.
EXTRAS
Áudio e imagem no Blog do Vaz - www.gcnvaz.wordpress.com
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