‘A Júlia é um anjo que está ali quietinho, precisando de ajuda’


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GESTO DE AMOR - Valéria Gomes Freitas abraça a filha Júlia sobre a maca onde a menina fica no quarto delas, numa residência no Centro: as duas recebem apoio da comunidade
GESTO DE AMOR - Valéria Gomes Freitas abraça a filha Júlia sobre a maca onde a menina fica no quarto delas, numa residência no Centro: as duas recebem apoio da comunidade
Cabeleireira desde os 14 anos, Valéria Gomes Freitas, 37, estava acostumada a visitar asilos para cortar os cabelos dos velhinhos como voluntária. Nesta semana a solidariedade mudou de lado. Após fazer um apelo para cuidar da filha Júlia Massucato Rezende, 11, uma verdadeira corrente se formou para doar fraldas, leite, colchão e R$ 3.220 em dinheiro para a criança e também levar palavras de conforto à mãe, vítima de uma tragédia estarrecedora. Valéria e Júlia foram baleadas na cabeça pelo pai da menina em outubro de 2008 (leia abaixo). As duas estão morando com mais cinco parentes numa casa no Centro de Franca, que pertencia ao marido de Valéria. Desde quarta-feira, quando o pedido de socorro feito por ela ganhou as páginas do Comércio da Franca, a movimentação na residência foi intensa. No salão de beleza do qual é proprietária e nos postos de arrecadação montados na sede do Grupo Corrêa Neves de Comunicação, Unifran e Clínica Beauty House, dezenas de pessoas fizeram suas contribuições. O reflexo destes gestos é uma mãe surpresa com a solidariedade da população e aliviada por ter como cuidar da filha que está totalmente debilitada, sem andar nem falar, presa a uma cama. “Como mãe eu fiquei muito emocionada e feliz. A gente sabe que é uma criança, ela tem 11 anos, ela está na cama. Ela não se move, não pode fazer nada. A Júlia é um anjo que está ali quietinho, sofrendo e precisando de ajuda”, disse Valéria. Em quatro dias, mãe e filha ganharam 70 pacotes de fralda, 80 latas de Nutren e 40 kits para a alimentação da menina feita por uma sonda no nariz. “Com o que doaram vou ficar fora do sufoco por muito tempo. Recebi muita fralda e leite. Muita gente também me liga para contar histórias de quem cuida de pessoas doentes na cama e que tem uma história de vida parecida com a nossa. Eu tenho só que agradecer”, disse ela, que está afastada do trabalho desde o crime. Atingida na cabeça, perdeu a visão do olho esquerdo e ainda fará mais duas cirurgias. Por dia Júlia consome uma lata de Nutren e usa oito fraldas, no mínimo. Os gastos com a criança são de R$ 1,6 mil mensais. Também foram feitas contribuições em dinheiro. Na conta de Valéria foram depositados R$ 780 até a tarde de sexta-feira. Nos próximos dias o Comércio da Franca repassará às duas R$ 2.440 de 17 assinaturas do jornal vendidas no último dia 23. A empresa fez uma campanha para contribuir com Valéria e Júlia. Todo valor vendido no dia será revertido integralmente às duas. APOIO PROFISSIONAL A ajuda não foi apenas material. Graças a profissionais voluntários, a partir desta semana, a rotina para recuperação de Júlia será totalmente diferente. Até o momento, a menina fazia sessões de fisioterapia e fonoaudiologia duas vezes por semana. Passará a ter todos os dias. Depois das reportagens sobre o caso, quatro especialistas procuraram Valéria para auxiliar nesta nova fase. Júlia foi atingida na cabeça e perdeu massa encefálica. Ela precisa de estímulos para voltar a andar, recuperar seus movimentos e a fala. A criança não anda, não consegue esticar os braços. As mãos dela ficam sobre o peito e, se alguém mexe, ela grita de dor. Fisioterapeuta há 30 anos, Marta Fuzisawa, 49, foi uma das profissionais que se sensibilizaram com a história. “Na minha profissão eu tenho contato com esse tipo de patologia mas não é só isso. A Valéria é uma moça lutadora. Ela merece, a Júlia merece todo apoio. São pessoas de muita coragem, de muito valor. Eu sou mãe de três filhas e me coloco no lugar dela. É um dever de cidadã ajudar”, disse. [FOTO2] A equipe da Apae (Associação de Pais e Amigos do Excepcional) de Franca também dará apoio à família. A entidade emprestou uma cadeira de rodas para Júlia, conseguirá uma cadeira de banho e prestará atendimento a ela na entidade. Júlia ainda precisa de gazes, lenços umedecidos e óleo da marca Dersani para evitar que se formem feridas no corpo dela por ficar todo tempo deitada.

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