O Museu de Arte Sacra de Embu apresenta marcas evidentes do desgaste pelo tempo, mas também pela ação ou omissão do homem. Concluído em 1690, o prédio é um colosso de taipa branca, erguido em três andares, que ensejam uma infinidade de salas e corredores.
Cercado de lendas, uma delas é que de sua janela mais alta os jesuítas conseguiam ver a região onde atualmente está o bairro de Pinheiros, em São Paulo, qualquer movimento em direção ao convento, fosse de saqueadores ou dos índios tupiniquins, uma tribo hostil, não muito chegada ao falatório dos religiosos.
Outra delas, nunca assumida ou desmentida pela igreja, é que do altar principal sai um túnel com centenas de metros, e que levariam os religiosos a um lugar seguro em caso de qualquer ataque.
Quem adentra seus cômodos encontra uma parte do rico acervo barroco brasileiro em forma de esculturas, andores, peças de adorno. Dentro desta impressionante coleção estão as não menos impressionantes imagens que os padres faziam para tornar mais fácil o seu trabalho de catequização das tribos indígenas.
Seguindo orientação de Santo Inácio de Loyola, o líder dos jesuítas em Portugal, parte considerável das imagens tinha uma feição humana até certo ponto assustadora. Eram feitas com articulações nos braços, pernas e pescoço. Usavam cabelos humanos e as manchas de sangue em seus ombros não deixavam nada a desejar a ferimentos reais.
Acreditava Loyola que quanto mais próximas as imagens fossem do aspecto humano real, mais fácil o trabalho de convencimento dos padres sobre os índios se daria. Outra das lendas que cercam o lugar é que as imagens teriam o rosto dos padres que a esculpiam. Algo difícil de acreditar, já que vários dos santos espalhados pelo museu são de autoria desconhecida.
Para os apreciadores de história, o museu é um privilégio. Primeiro porque há imagens, como o Cristo Morto, a Santa Ceia e diversas outras criações atribuídas ao padre Macaré, com seus indefectíveis santos mulatos. Em segundo lugar, porque lá estão dispostas peças inacabadas que os jesuítas foram obrigados a deixar no lugar antes de fugir, expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1759. Mas há mais que isso, como as curiosas portas em que o recheio das folhas eram assentamentos com os nomes dos mortos na vila, a data e a causa do súbito, religiosos ou não.
Em praticamente toda sua história, o convento, depois museu, sofreu com a interferência humana. Nos contornos de seu principal altar, por exemplo, a cor das peças sugere que um dia elas foram cobertas por ouro, mas do metal não sobrou nada, após anos e anos de depredação.
Suas valiosas peças sempre foram alvo da cobiça de ladrões e de comerciantes internacionais de arte. Roubadas em assaltos, o último dos quais há menos de seis meses, desfalcam o museu para sempre.
Décadas seguidas de desmazelo refletem-se hoje no corre-corre dos monitores com baldes para conter as bicas de água que escorrem pelos telhados, situação que não dignifica em nada o presente do primeiro patrimônio tombado em território paulista (em 1938, por Mário de Andrade). Na década de 80, sob administração da Prefeitura de Embu, o museu por pouco não se transformou em uma grande oficina mecânica.
Atualmente, a administração do museu está sob a responsabilidade da Fundação Páteo do Colégio, de São Paulo. Ao entrar, o visitante deixa bolsas, câmeras ou máquinas fotográficas e é acompanhado de perto por um monitor. A entrada custa R$ 2. É o mínimo para evitar que curiosos ou mal-intencionados continuem acabando aos poucos com a história de Embu. Coisa que os visitantes de 35 nacionalidades diferentes que assinaram o livro de presença em dezembro do ano passado fazem questão de ver preservada.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.