Conheço o Zói há mais de duas décadas. Claro que `Zói` não é o seu nome mas ganhou a alcunha do sujeito mais forte da nossa turma do colégio, o Fantomas, que em razão de sua "grandeza" impunha muito temor para quem tinha um tiquinho de juízo, não encontrando quase ninguém que obstasse ao ser apelidado por ele na escola. Exceto o Zói, que achava ter os olhos no tamanho normal como o de qualquer outra pessoa, e discordando, passando vários dias se tratando com compressas de gelo sobre um de seus "zóios".
Foi sempre um sujeito simples, de vida pacata, o que não significava levar desaforos para casa, tampouco servir de espetáculo fazendo papel de tolo. Aos mais de 30 anos não mudou nadinha. Continua o mesmo Zói questionador que não “come nada amanhecido”.
Contou-me recentemente, durante demorado encontro casual, das muitas experiências ruins que tem passado como cidadão-consumidor numa cidade que vem crescendo muito e que, junto a ela, uma certa corja de picaretas estabelecem verdadeiras armadilhas para levar vantagem abusando da boa-fé alheia.
O Zói tem consciência e responsabilidade. Fez questão de ressalvar que ainda existem pessoas dotadas de escrúpulos que se distinguem desses picaretas de plantão, prontos a furarem os olhos dos desavisados.
Numa dessas roubadas comprou um carro popular e descobriu mais tarde ser o seu auto importado do Tocantins. O chassi estava trincado e a cor de fabricação era amarelo-perolado e não azul como havia comprado. Morreu no prejuízo, mas não deixou de tecer “elogios” à genitora do vendedor.
Continuando a conversa, disse-me que em determinada ocasião já estava cansado de atuar num determinado ramo profissional e, ao discutir a idéia da mudança com a família, resolveu se qualificar matriculando-se num curso de hardware. No primeiro dia de aula se viu num cubículo tão apertado que mal cabiam os 11 alunos matriculados.
As banquetas usadas para assento eram altas, sem encosto e desconfortáveis; o professor falava coisas incompreensíveis dificultando a percepção de tal maneira que Zói chegou a pensar que tinha algum tipo grave de déficit de aprendizagem. Na sexta aula “acordou” para com aquela embromação e concluiu não ter descoberto ainda o que era o “cooller”, o processador e nem mesmo qual era a função da “fonte” do computador. Desistiu do curso e aí descobriu a salgada multa do tal do “destrato”. Inconformado, denunciou e não deixou a coisa barata.
O Zói anda tão desconfiado que quando vai tomar chope leva o seu copo do Corinthians de 300 ml junto; segundo ele, ninguém confere o tamanho “real” do copo em que o líquido é servido. Sobre isso disse que ainda vai sugerir à edilidade uma lei que faça constar no copo os mililitros, e bem nítido.
Nem mesmo seu cabeleireiro amigo de infância escapou de sua revolta. Segundo Zói, quando o sujeito vai fazer o pezinho do cabelo usa a mesma lâmina nuns cinco marmanjos. Reagiu e mudou de salão sem se despedir.
A revolta dele talvez não seja mera implicância de cidadão e tenha razão de ser, considerando que diariamente a teia da exploração está espalhada em toda parte. Resta saber até que ponto permitir os abusos, dando o “basta” quando necessário, fugindo de todo e qualquer conformismo alimentado pela passividade e pela inércia.
Ricardo Gallo Veríssimo
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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