Às 9h30 da última sexta-feira, a fila de atendimento no número 1888 da Rua Padre Anchieta, em pleno Centro da cidade, já era grande. Pelo menos 15 pessoas aguardavam. Lá funciona uma das unidades do 1º Cartório de Notas e Protestos de Letras e Títulos.
O movimento é um reflexo da crise econômica que assolou o mundo a partir de meados do ano passado. Franca não ficou imune. Com a recessão, o número de compromissos financeiros não honrados na cidade disparou. Só no último trimestre do ano passado, pelo menos 12 mil cheques, duplicatas e notas promissórias não foram pagos e acabaram protestados em dois dos três cartórios que funcionam no município. O volume é 53% maior que no mesmo período de 2007.
Para o tabelião do 1º Cartório de Títulos e Protestos, Lincoln Bueno Alves, o aumento nos protestos é resultado da retração econômica enfrentada por Franca. “Com a crise mundial, muitas empresas foram atingidas, tiveram que cortar pessoal e não conseguiram vender aquilo que esperavam. Sem lucrar, não honraram seus compromissos. Os protestos cresceram além do normal”.
O protesto é um instrumento legal usado pelo credor para a cobrança de uma dívida, normalmente em cheque, duplicata ou nota promissória. Só depois do protesto efetivado é que o credor pode ingressar na Justiça para receber. Além disso, quando um título é protestado o nome de quem o emitiu é incluído na lista negra dos sistemas de proteção de crédito.
O professor de Economia e Análise de Balanços da Unifran (Universidade de Franca), Donizeti Tridico, disse que o aumento no volume de protestos tem relação direta com a mudança de postura dos consumidores. “Seja porque estavam muito endividadas, seja porque ficaram com medo da crise mundial, o fato é que muitas pessoas deixaram de comprar no último trimestre do ano passado. Sem elas, os estoques das lojas encalharam. Com isso, os lojistas não tiveram como pagar os industriais. Sem receber, os industriais também não pagaram seus fornecedores e demitiram. Foi um círculo vicioso”.
A história de João*, um ex-dono de uma fábrica de calçados, é um exemplo do que aconteceu em Franca. Até o início de outubro, seus negócios iam muito bem. A empresa que produzia 800 pares por dia, tinha pedidos, 150 empregados diretos e indiretos e seis anos de estrada. Os primeiros efeitos da crise começaram no fim de outubro. Para continuar crescendo, a fábrica precisava de empréstimos nos bancos. João entrou com os pedidos. Mas todos foram negados.
Para piorar, o número de duplicatas não pagas começou a crescer. Sem alternativa, ele freou a produção. Não adiantou. A inadimplência continuou alta. Em 1º de novembro, a fábrica teve um cheque devolvido. Foi o primeiro de muitos outros. Ao fechar as portas, em 11 de dezembro, João contabilizou 30 protestos. “Eu tentei mas não consegui pagar tudo. Não recebia dos meus compradores. Também levei muitos títulos para o cartório. Ao todo, o calote que levei ultrapassa os R$ 200 mil”.
Para o professor de Economia, serão necessários pelo menos seis meses até que a economia da cidade se recupere. “Não acredito que, a curto prazo, esses números mudem. Na minha opinião, só teremos uma diminuição nos protestos a partir do fim deste ano. Isso se nada mais grave acontecer”.
(*) O ex-calçadista pediu para não ser identificado
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