A Prefeitura Municipal e o Governo do Estado decidiram ignorar a Santa Casa de Franca e estão encaminhando os pacientes da fila das cirurgias eletivas para cidades da região. Desde outubro do ano passado, mais de 500 pessoas foram operadas em São Joaquim da Barra e Ribeirão Preto. Removeram cataratas, hérnias, fizeram vasectomia ou realizaram outros procedimentos de média e alta complexidade.
A solução encontrada para aliviar o sofrimento de parte das 5 mil pessoas que esperam há anos na fila gera um gasto para a administração de R$ 80 mil a R$ 90 mil por mês apenas com transporte. “Muitos precisam ser encaminhados de maca. É um transtorno”, diz o secretário de Saúde, Alexandre Ferreira. O valor, muitas vezes, é maior que o das próprias cirurgias realizadas. Tudo porque, mesmo com a pressão do Ministério Público, não foi possível chegar a um acordo com a Santa Casa de Misericórdia de Franca.
Resultado: a Prefeitura é obrigada a arcar com um gasto que poderia ser direcionado para outras áreas; muitos pacientes - debilitados por suas doenças - sofrem durante o transporte e a própria Santa Casa, que rotineiramente reclama do déficit operacional, deixa de receber por um trabalho extra.
O trato entre Estado e Prefeitura foi estabelecido no ano passado, quando o Ministério Público exigiu que alguma providência fosse tomada para diminuir a quantidade de pacientes na fila. O objetivo é realizar quase 3 mil procedimentos, até 124 por semana. A Prefeitura é responsável por fazer uma triagem dos pacientes, todos os exames pré-operatórios e depois por transportá-los. O Estado agenda as cirurgias nos hospitais, de preferência no Hospital Estadual de Ribeirão Preto.
MOEDA DE TROCA
A Santa Casa de Franca nunca negou que tivesse capacidade estrutural de fazer as cirurgias, o grande impasse é o valor pago por elas. “A margem de lucro nos procedimentos pagos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) é muito pequena, se é que tem (...)”, disse o diretor-clínico do hospital, Marcelo de Paula.
Este não é o mesmo pensamento do diretor clínico da Santa Casa de São Joaquim da Barra, João Alberto Destro. Pelo menos, quando o assunto são as cirurgias de catarata. Destro diz que a catarata é um dos procedimentos mais rentáveis para os médicos. No ano passado, o hospital realizou 150 cirurgias deste tipo em pacientes de Franca. “O objetivo é atender a comunidade”, diz ele, que garante que prefere deixar, para o médico, como uma maneira de incentivo, os R$ 240 que o procedimento - realizado em menos de 30 minutos - gera de lucro.
Estabelecido o impasse, as viagens para a região devem continuar. “Eu tenho que procurar meus caminhos. Tenho de achar um meio de fazer a cirurgia para a população. Esse é o meu trabalho. Agora, se a Santa Casa não quer fazer porquê sei lá o que, problema deles. Seria muito melhor fazer aqui? Seria”, desabafa o secretário municipal de Saúde, Alexandre Ferreira.
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