Numa casa antiga no Centro, Júlia Freitas Massucato Rezende, 11, ocupa um dos três quartos da residência. Deitada numa cama de hospital, passa os dias sobre um lençol cor-de-rosa, com fronha e edredom com detalhes na mesma cor. Fica ao lado de seis anjos e dois terços que, da parede, velam seu sono. Quando está acordada, costuma fixar o olhar nos brinquedos encaixotados sobre o guarda-roupa, talvez aguardando o momento de serem tocados por ela novamente. No meio das caixas, estão os patins rosa que eram de Letícia, sua irmã gêmea. A mãe sonha com o dia em que a garota poderá desfrutar do brinquedo.
Júlia é filha da cabeleireira Valéria Gomes Freitas, 37. As duas foram vítimas da tragédia ocorrida na Rua Ouvidor Freire em 24 de outubro de 2008, quando Hélder Massucato Rezende, 46, atirou nos três filhos, em Valéria e na mãe dele. Depois se suicidou. Valéria e Júlia são as únicas sobreviventes.
Depois de receber alta do hospital, Valéria se hospedou na casa de uma irmã no Bairro Santa Rita. Em dezembro se mudou, na companhia da irmã, do cunhado e três filhos deles, para uma casa no Centro. O imóvel pertencia ao marido. Há exatos 15 dias, a cabeleireira passou a dividir seu quarto com a filha. Júlia recebeu alta da Santa Casa após quatro cirurgias e 74 dias internada.
Valéria vive 24 horas dedicada à criança. Júlia não se movimenta nem fala. Apenas grita. Às vezes acompanha as pessoas com o olhar e, segundo a mãe, reage às suas conversas. “Ela sorri quando falo coisas engraçadas”.
A alimentação com suco, leite (Nutren) e água é feita por uma sonda no nariz. O mesmo procedimento é adotado na hora da medicação. Os banhos são dados pela mãe e uma tia. As fraldas precisam ser trocadas oito vezes por dia. Os raros momentos em que mãe e filha deixam a residência acontecem às segundas e sextas-feiras.
Nesses dias, Júlia tem sessões de fisioterapia e fonoaudiologia no Centro de Reabilitação do Complexo Santa Casa, ao lado do Hospital do Câncer. Mãe e filha vão de carro, levadas por conhecidos. “A Júlia é como se fosse um nenê, mas é mais difícil de cuidar. Quando um bebê chora está com fome ou cólica. Se a Júlia acorda e grita não sei exatamente o que ela quer. Minhas filhas gêmeas nasceram de sete meses e foi difícil cuidar delas, mas eu sabia que essa fase ia passar. Já o futuro da Júlia é incerto”.
NECESSIDADES
Além desse drama diário, Valéria ainda tem enfrentado problemas financeiros. A situação é tão delicada que, após meses de silêncio, ela decidiu abrir sua casa e conceder entrevista para pedir ajuda. As despesas com Júlia são altíssimas. Gasta cerca de R$ 1.600 por mês para comprar Nutren, fraldas e kits descartáveis para alimentar a filha pela sonda (os equipos). Os medicamentos são fornecidos pela Prefeitura.
Valéria é proprietária de um salão de beleza no Centro, mas está sem trabalhar desde outubro. Além dos cuidados com Júlia, ela própria ainda se recupera do ferimento causado pelo tiro que levou na cabeça. Com seu afastamento, o movimento caiu pela metade. Sem outra fonte de renda, a cabeleireira tem sobrevivido com apoio de seus familiares e doações de amigos.
Após o crime ela esteve no salão apenas três vezes. Acostumada a trabalhar dez horas por dia e ser independente, esforça-se para se acostumar com a ausência no emprego. “A maior renda da casa sempre foi a minha. O Hélder não trabalhava. Ganhava dinheiro do pai dele todo mês para fazer o que quisesse. Ele gostava de ficar com os filhos”.
Um dos desejos de Valéria é voltar a atender as clientes após as duas cirurgias que fará no olho nos próximos meses. Com o tiro, perdeu a visão esquerda e precisará de novas operações. “Sempre lutei muito. Nunca tive preguiça. Meus filhos nasciam e, em 30 dias, eu já voltava a trabalhar. Agora estou totalmente dependente. Fiquei sem renda. Acho complicado agora” (leia mais no site).
COMO AJUDAR
Júlia Massucato precisa de fraldas de adulto tamanho M, Nutren 1.0 e equipos. Valéria gostaria que a filha tivesse acompanhamento constante de fisioterapeuta e fonoaudióloga. A expectativa é a de que profissionais voluntários se ofereçam para cuidar de Júlia.
A partir de hoje, será montado um ponto de arrecadação de donativos na sede do Grupo Corrêa Neves de Comunicação, na Avenida Eliza Verzola Gosuen, 3103, no Jardim Ângela Rosa. Doações em dinheiro devem ser feitas para Valéria Gomes Freitas, no Banco Nossa Caixa, na conta número 19.029.097-3, agência 0020-5. A partir de quinta-feira, a CTBC disponibilizará um número de telefone especialmente para a campanha. As pessoas que não têm condições de entregar as doações podem ligar para 3721-9001.
EXTRA
Ouça a entrevista de Valéria, com reportagem de Nelise Luques, acessando o link: http://tiny.cc/entrevistavaleria
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