Essa denominação teve origem em uma profissão, na época, bem artesanal. Quer atividade mais lúdica que produzir um par de sapatos com as próprias mãos, sem uso de maquinário algum, muito menos cola? Somente o couro, a tachinha, a linha e a habilidade manual?
A Baixada dos Sapateiros homenageia esses profissionais. Trata-se de um dos bairros de Salvador, capital da Bahia. Por lá morava um homem que fazia sapatos. Outros também aprenderam o ofício. A atividade alastrou-se pelas redondezas do mangue. O lugar ficou conhecido como Baixada dos Sapateiros.
Depois veio a poesia de Ary Barroso com a forma reduzida (baixa) no título da letra da música Na Baixa do Sapateiro, gravada por quase todos os cantores do Brasil e também por alguns de língua estrangeira. A diminuição do nome pegou e ficou. Com isso, até a denominação do bairro mudou oficialmente.
Muita gente conhece os versos iniciais e inocentes da canção: “Na Baixa do Sapateiro / Eu encontrei um dia / A morena mais frajola da Bahia / Pedi-lhe um beijo, ela não deu / Um abraço, ela sorriu / Pedi-lhe a mão, não quis dar / Fugiu”.
Se bem analisada, a letra suscita muitos trocadilhos. Ainda mais nos dias de hoje em que quase ninguém pede a mão de uma morena (loira, ruiva...) e, mesmo assim, ela acaba dando. Ao contrário do verso final, também não foge!
No entanto, numa realidade adversa e concreta o que fugiu mesmo foi a tranquilidade dos sapateiros de toda parte. Os pedidos sumiram das fábricas. A venda de sapatos anda muito em baixa, fato esse que deixa também em baixa a vida de todos aqueles ligados diretamente à produção de calçados.
Há não muito tempo o sapateiro tinha estabilidade no emprego. Mesmo com os altos e baixos do mercado, sabia que podia contar com o serviço. Todo começo de ano era época de férias. Não se falava em desemprego. Quando muito, o período de descanso podia se estender um pouco mais. Só isso. Nada de demissões em larga escala por conta da instabilidade econômica vigente.
As demissões de final de ano eram compensadas logo depois do Carnaval, em fevereiro. Na década de 90, a exuberante fábrica Samello utilizava os serviços de telegramas dos Correios para chamar candidatos inscritos às vagas de sua linha de produção. A entrega de correspondência rápida congestionava-se. Muitas vezes, eram enviados perto de 100 mensagens num só dia.
Percorrendo o caminho inverso do passado, o Grupo Amazonas dispensou cerca de 390 funcionários no final de 2008. Parte dos trabalhadores foi comunicada exatamente por telegrama, meio de comunicação que sempre teve a pecha de portar má notícia. Cumpriu a sina. E o que é pior, numa época festiva.
O desalento maior agora fica por conta de saber quando vai ocorrer a alta do sapateiro. A baixa, sem dúvida, está acontecendo no momento presente. Pelo alarido da crise econômica e também por tudo aquilo que se ouve nas conversas dos desempregados do setor de sapatos, a previsão de melhora descortina-se num horizonte nebuloso e ainda muito distante.
Tomara que depois da passagem dos festejos carnavalescos a economia fique mais centrada, possibilitando maior circulação de dinheiro para ativar as vendas. Assim, quem sabe, “A Baixa do Sapateiro” volte a ser somente cantada!
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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