Poucas vezes nas 36 edições da Couromoda uma delas foi aguardada com tanta expectativa como esta última. Mas, como diz o adágio português, entre mortos e feridos salvaram-se todos!
E, como em todas as edições anteriores, há os que se embriagam com o sucesso e há outros que estão lambendo feridas e avaliando danos. Neste ponto também não há novidades. Sempre foi assim e sempre assim será.
Esta feira tinha uma conotação muito especial. Aconteceu às vésperas de uma crise, hoje já aceita como tal, só que de uma magnitude ainda desconhecida. Nem os mais experientes economistas, com acesso aos dados mais privilegiados ousam profetizar o tamanho e a duração de recessão, em muitos pontos já com risco de depressão. Por isso é necessário prestar atenção aos mínimos sinais, que nos podem indicar o provável rumo dos acontecimentos.
Quais são estes sinais e como interpretá-los? Sinal bastante preocupante foi uma quase ausência de importadores de peso. Latino-americanos compareceram, mas não houve pedidos nos volumes costumeiros. O departamento da divulgação da Couromoda irá, como sempre, apresentar números impressionantes, mas as visitas de importadores se traduzem em pedidos e estes não apareceram em quantidades esperadas. Muito pelo contrário. E isso é mal sinal.
Se um lojista brasileiro pede, após ver o mostruário que a empresa lhe mande o representante à sua loja, meio caminho para um pedido já foi andado. Mas um importador não pode fazer isso. Ou seja, ou compra ou não compra. E desta vez poucos compraram.
Nos compradores nacionais podia ser notada, também, certa reticência, justificada pelo crescimento da inadimplência verificada nos pagamentos do crediário e notícias alarmantes sobre o desemprego e conseqüente diminuição, tanto de meios, como de vontade de comprar. Mas, como bem observou um lojista: "se o povão parar de comprar automóveis e home theaters, quem sabe sobra dinheiro para roupas e calçados!".
No geral podemos afirmar que a crise, a tão falada crise que já está abalando meio mundo ainda não foi sentida no Brasil em sua plenitude, pelo menos no que diz a respeito à indústria de calçados e à primeira feira do ano. É preocupante a queda de produção já verificada nas indústrias de bens de capital, na construção civil e na metalurgia em geral. Se estas locomotivas diminuírem o ritmo ou pararem as indústrias de transformação e entre elas a coitadinha da indústria de calçados, não terão como escapar da paradeira geral.
A indústria de calçados ainda vive um momento relativamente tranqüilo, embora já tenha contabilizado algumas baixas importantes. Nunca é demais alertar sobre as economias e sobre um controle rígido de despesas, do capital de giro e de compras. Métodos de venda e de distribuição condizentes com o terceiro milênio também não podem ser mais adiados.
Foi interessante observar o aumento do número de firmas chinesas expondo seus produtos. Mais interessante ainda foi observar a modéstia e humildade dos estandes dos chineses em comparação com verdadeiros monumentos arquitetônicos apresentados por firmas brasileiras. Promover a marca sim, merece todo aplauso, fazer uma exibição funcional que coloca o produto debaixo de holofotes, sim; mas ostentação, uma vaidade mal escondida? Será, que os donos destas firmas pensam que os compradores, homens e mulheres de negócios, não sabem avaliar que o custo desta ostentação está embutido no preço da mercadoria que compram?
Será que o calçado chinês, vendido humildemente, sem nenhuma ostentação, não tem uma parte de seu baixo custo justificada por este procedimento? Dá para pensar. E para provar que isso é bem possível temos exemplos de firmas que nas feiras passadas ocupavam quase uma ilha inteira do evento e, desta vez, se satisfizeram com uma porta modesta. E, pasmem, funcionou!
Muito bem, a feira passou. Tem gente que voltou para casa e, ao verificar os resultados obtidos passou a acreditar que a crise já se abateu sobre o País com força total. Há outros que voltaram e dizem, com cara de espanto, "de que crise estão falando?". Nem isso invalida o alerta para agir com segurança, economia, planejamento e precaução, pesando e avaliando cada passo no que significará o comprometimento do capital, da liquidez e do capital de giro. Vamos começar desde já, a falar da Francal?
CEM ANOS?
Foi interessante notar na Couromoda, no segmento do calçado casual e esportivo, a volta triunfal do tênis vulcanizado com solado de borracha natural. O calçado que foi lançado pela Converse em 1912 quase mantém a sua forma original intacta. Seria interessante saber se haverá alguma edição comemorativa do primeiro centenário.
REAÇÃO IDEAL
O calçado feminino brilhou, em plena acepção da palavra brilhar, na feira. Além de couros com cobertura de verniz, bijuterias, couros metalizados, metais e enfeites foram usados sem nenhuma economia pelos desenhistas. Quem sabe, numa época de restrições e de economia esta deve ser a reação para os dias cinzentos que nos aguardam.
ELETRICIDADE E COURO
No calçado masculino o destaque cada vez maior está no trabalho semi-artesanal da costura manual unindo sola ao cabedal. O que ainda falta é o retorno da sola de couro, por vários motivos, mas o principal é a saúde do usuário. O corpo gera eletricidade estática em volumes cada vez maiores devido à fricção das fibras sintéticas usadas na confecção de roupas modernas. Usando a sola de couro a eletricidade é dissipada a cada passo, fazendo “terra”. A grande hora para o come-back das solas de couro se dará quando algum trabalho científico sério demonstrar o quanto é prejudicial para o sistema nervoso esta carga elétrica gratuita.
Zdenek Pracuch
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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