<p>Pela quarta vez ocupando um cargo público na Prefeitura de Franca, o advogado e bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, Sebastião Manoel Ananias, é considerado um dos “homens fortes” do prefeito Sidnei Rocha (PSDB). A ele é creditada boa parte da recuperação econômica propalada pela administração nos últimos anos. </p>
<p><br />Antes de chegar ao posto, Ananias foi vendedor ambulante, servente de pedreiro, engraxate, desenhista de residências por 12 anos, bancário por 32 e advogado por 20. </p>
<p><br />Cafeicultor em Ibiraci-MG, onde nasceu, o mineiro é um homem sem meias palavras e costuma dizer que não “come nada amanhecido”. Além de importante auxiliar do prefeito é também um fiel aliado político que não poupa críticas aos adversários. Principalmente quando se trata do Partido dos Trabalhadores. “Eu respeito muito o PT como oposição, mas somente como oposição porque como administração é uma desastre”. </p>
<p><br />Ananias iniciou a carreira administrativa em 1983, quando foi nomeado diretor financeiro da Emdef. Um mês depois passou a ocupar o cargo de presidente da empresa no lugar de Agostinho Galgani da Silva, que pediu demissão. Em janeiro de 2005 voltou à Prefeitura com a tarefa de recuperar a credibilidade desgastada por dívidas deixadas pela administração petista. Trabalho que acredita ter conseguido. “Podemos dizer que a Prefeitura tem apenas três grandes credores e todas as parcelas estão em dia”. </p>
<p><br />Por cerca de uma hora, Ananias conversou com a reportagem do Comércio em sua confortável residência na Rua Domingos Alarcon Garcia, Jardim América.<br />Entre um cafezinho e outro, feitos com grãos cultivados em sua fazenda, o secretário mostrou fotografias da família, da propriedade e do netinho, a quem deseja inspirar orgulho. “É para esse aí que eu faço tudo. Quero que ele tenha orgulho do avô”, diz, mostrando a foto do pequeno... </p>
<p><br />Confira abaixo os principais trechos da conversa. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Como o senhor vê esse desafio de um novo mandato que começa agora?<br />Sebastião Ananias -</strong> Eu posso dizer que estou no governo pela quarta vez, mas acho que o desafio é do mesmo tamanho. É produzir resultado. Mas as nossas contas agora estão mais acomodadas. A Prefeitura tem hoje três credores: o Governo Federal, com o INSS, o FGTS e o Pasep e que somados beiram os R$ 80 milhões; 31 parcelas de R$ 105 mil e outras três de R$ 185 mil de um acordo feito com a CPFL; e uma pequena dívida de 30 parcelas de R$ 20 mil mensais com o SASSOM. Todas estão em dia e não criam nenhum transtorno. </p>
<p><strong>Comércio - Tem sido divulgado que a Prefeitura fechou o ano com superávit. Não compensaria usar esse dinheiro para amortizar essa dívida?<br />Ananias -</strong> Nós tivemos um superávit de R$ 17 milhões este ano, que somados aos R$ 10 milhões de 2007, chegamos a um superávit de R$ 27 milhões. Se você analisar a questão do rendimento do que a Prefeitura arrecada e aplica, não compensa liquidar. Além disso, nós ainda estamos num compasso de espera para saber o tamanho da crise que assombra o planeta. Então eu disse ao Sidnei que é prudente da nossa parte fazermos uma reserva estratégica de recursos para não ser surpreendido por alguma queda de receitas. </p>
<p><strong>Comércio - Como a Prefeitura conseguiu esse crescimento?<br />Ananias -</strong> Para isso fizemos algumas modificações na Secretaria. Na área de tributação foi implementada a cobrança mensal dos inadimplentes e com isso conseguimos uma recuperação mensal de mais de R$ 1 milhão só em cima da dívida ativa. Os fiscais de renda que vinham fazendo uma média de 70 auditorias fiscais por ano já chegaram a 580. Isso é buscar o imposto do município que está na mão do sonegador. E nisso nós batemos pesado. </p>
<p><strong>Comércio - Quanto afinal a administração Sidnei Rocha pagou de dívida nestes quatro anos?<br />Ananias -</strong> Entre o que estava contabilizado que eram R$119 milhões mais os restos a pagar de R$ 26 milhões. Aí tem uma situação de discussão de sexo dos anjos, porque as contas tinham sido bloqueadas em 30 de dezembro de 2004, mas tinha ordem judicial mandava comprar medicamento, tinha pressão do Ministério Público do Meio Ambiente para construir o Aterro Sanitário. </p>
<p><strong>Comércio - A Secretaria de Finanças foi a que mais contribuiu para o sucesso da administração do Sidnei?<br />Ananias -</strong> Eu não diria que uma Secretaria é mais importante que a outra, mas a área financeira de qualquer empreendimento, inclusive doméstico, é a que não pode falhar, porque se falhar, falha o resto. </p>
<p><strong>Comércio - Mas a Secretaria de Finanças e, no caso de Franca, o senhor mesmo, fica na posição de ‘chefe’ das outras secretarias, que precisam pedir a benção para determinados gastos.<br />Ananias -</strong> Não. Aliás, isso já me criou muito aborrecimento na Prefeitura, porque lá a gente lida com vaidades. Eu, que estou na parte da administração financeira, tenho que ter a decência de dizer aos outros secretários que aquela despesa naquele momento não é possível. Não sou eu que estou dizendo, é a Prefeitura que não pode fazer aquela despesa naquele momento. Só que às vezes, você enfrenta situações complicadas. Eu estou lá para trabalhar e não para desabonar, para desagradar nenhum secretário ou funcionário, mas a diferença é que quem assina o cheque sou eu. Quem tem que ter a responsabilidade de que aquele cheque tenha fundo sou eu e eu não posso colocar o prefeito numa saia-justa ao autorizar um secretário a fazer um gasto que não é oportuno. </p>
<p><strong>Comércio - Qual é o secretário que pede mais?<br />Ananias -</strong> Todos pedem igualzinho. Nenhum pede mais ou menos, todos pedem muito (sorri). Comércio - Quem tem mais dificuldade de aceitar essas negativas?<br />Ananias - Eu diria que é o prefeito (sorri). Uma das coisas que eu admiro no Sidnei é que ele tem uma pressa de fazer muito e a receita da Prefeitura não acompanha a pressa dele, então várias vezes acontece dele me chamar no gabinete e dizer que quer fazer alguma coisa. Aí eu fico entre a cruz e a caldeirinha, porque não tem dinheiro para aquilo. E eu tenho que dizer ao prefeito que naquele momento não é a hora para aquele tipo de despesa. Mas quero deixar claro que nenhum pedido de nenhum dos secretários nesses quatro anos deixou de ser atendido.<br />Mas ele me conhece e sabe que não é do meu feitio bajular. Eu costumo dizer que ele nunca foi meu chefe e nunca será. Ele tem em mim um colaborador de qualidade enquanto ele desejar e achar interessante para a cidade. Ele é hierarquicamente maior que eu, então ele pode me demitir e eu não posso demiti-lo.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Nesta reforma administrativa do segundo governo, o senhor ganhou de presente um secretário adjunto (Odair Tristão, ex-secretário de Governo). O senhor já sabe qual vai ser a função dele e como é a sua relação com ele até agora? <br />Ananias -</strong> Eu sempre tive um bom relacionamento com o Odair. Nós dois temos características parecidas, “não comemos nada amanhecido”. Eu não falo pelas costas e o Odair também tem essa virtude. Já conversei com ele e já está delimitado o campo de atuação dele como adjunto. Eu tenho algumas áreas nas quais eu enfrento dificuldade, porque o meu dia só tem 24 horas e as minhas ocupações ultrapassam esse período. <br />As reuniões do Dinfra eu faço depois das 17h30. Eu participo de todas as reuniões de projetos que envolvem despesas. Há uma “queima” de tempo muito grande durante o dia e é nesse campo que ele vai entrar. Ele conhece o Direito e vai cuidar de algumas licitações que precisam ser agilizadas. Uma delas é a do transporte coletivo urbano, que é um assunto muito complexo e já está comigo, mas eu não tive tempo ainda para tratar. Essa vai ser a primeira tarefa do Odair. </p>
<p><strong>Comércio - Como está o relacionamento com a Câmara? Existem muitas críticas aos pedidos de remanejamento de verbas orçamentárias, que sempre são aprovados depois de muita chiadeira. Isso vai continuar a ser feito neste ano? <br />Ananias -</strong> Em 2009 nós vamos ter um fluxo menor dessas situações. Agora, o que a gente tem de entender é que o Poder Legislativo é um poder composto por 15 vereadores e não apenas um. Só que a dinâmica do Poder Executivo nem sempre passa pela dinâmica do Legislativo. Enquanto o Executivo trabalha numa dinâmica de trabalho permanente, a reunião da Câmara é uma vez por semana, então, às vezes, você tem um processo que precisa ser resolvido e você tem que esperar até a outra semana. Aí não tem outra alternativa. Para não quebrar a velocidade do atendimento que a população espera é preciso solicitar o chamado regime de urgência. Exceção feita a muito poucos, principalmente à oposição. Aliás, a oposição não grita, nem chia, e nisso eu respeito muito o PT. Ele é excelente como oposição, não pode deixar de existir, mas como governo o PT é um desastre. Só que são situações que os vereadores normalmente entendem e aprovam. Alguns por 13 a 2, mas a grande maioria com a votação até do PT. </p>
<p><strong>Comércio - Na votação do Orçamento de 2009, a Prefeitura pediu 25% de margem de livre remanejamento e acabou ficando com 15%. Quanto a Prefeitura queria realmente?<br />Ananias -</strong> Queríamos 100%. Qual governante que não quer administrar sozinho o Orçamento? Mas não por desprestigiar o Legislativo e sim por causa daquela pressa que eu acabei de te explicar. Mas a soberania do Poder Legislativo manifestou-se nos 15%, que viraram lei e nós vamos cumprir tranqüilamente. Entretanto, eu gostaria mais se tivesse ficado nos 25% porque teríamos menos projetos de remanejamento na Câmara. </p>
<p><strong>Comércio - Há pedidos de vereadores em troca da aprovação de algum projeto em regime de urgência?<br />Ananias -</strong> Nunca! Aliás, recentemente eu dei uma entrevista sobre os custos do Legislativo e eu disse ao repórter que ele estava fazendo uma análise truncada do Poder Legislativo, que é um dos três pés da democracia e sem ele não existe democracia, então essa questão de quanto custa um vereador não deve ser discutida nesse nível. Eu nunca tive de nenhum vereador nenhum pedido de favor, a não ser aquele que vem até a minha sala para pedir coisas simples como analisar um parcelamento de IPTU atrasado, que eu recebo da cidade inteira. Isso é comum e um direito, mas barganha comigo não! Eu nunca abri flanco para negociações. Meu norte é a lei, vou segui-la e ‘PT Saudações’, sem trocadilho. Com relação aos vereadores eu posso dizer para você uma frase simplista: Franca tem uma das Câmaras mais baratas do Brasil ou a mais barata. Franca teve a maior devolução de dinheiro, R$ 2,7 milhões, apesar de estar construindo sua sede própria. </p>
<p><strong>Comércio - Qual desses nomes: Sebastião Ananias, Alexandre Ferreira, Valéria Marson, Jerônimo Sérgio Pinto, o senhor preferiria ver ao final deste mandato sentado na cadeira que hoje é ocupada por Sidnei Rocha?<br />Ananias -</strong> Mineiro costuma dizer que “o futuro a Deus pertence”. Eu não tenho nenhuma pretensão de ser prefeito ou vice. Já estive candidato a vice duas vezes e custei entender que eles tinham me convidado para que eu “visse o prefeito” e não que fosse vice-prefeito (sorri). Eu acho que aos 64 anos eu posso dizer que Deus já me deu muito mais do que eu mereço e o que eu tenho que fazer é deixar a Prefeitura em condições de que o próximo prefeito sofra muito menos do que nós sofremos. Eu não tenho preferência. A preferência é do povo.</p>
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