Gosto de conversar com meu interino, Alexandre Fischer. Ele é dos que gostam de fazer limonada com os limões que a vida lhe dá. Mas não se aproxime quando estiver arroxeado, cor indicativa que acaba de enfrentar uma consulta de convênio. Leia o que ele escreveu. Como a um espelho, você vai se ver refletido...
Com uma boa dose de boa vontade dos empregadores, alguns apertos nos cintos dos empregados e muita desilusão com o sistema público de saúde livram-se, alguns, das dores de cabeça do atendimento do SUS. Mas, conveniado, não se iluda: agora é que começa seu transtorno...
Quando pequeno tive o privilégio de ser atendido - muitas vezes em casa mesmo - pelos médicos Chafic Facury e Jarbas Spinelli. Doenças em nossa casa eram muitas vezes tratadas com um chazinho quente. Uma injeção dada pelo farmacêutico da esquina que nos conhecia pelo nome resolvia problemas mais graves na ausência do médico da família.
Bons tempos, que não voltam mais. Hoje até a aplicação de qualquer injeção é regulamentada e cheia de restrições. E sobre o atendimento médico é melhor nem comentar.
Trato sobre os convênios. Sempre imaginei - ingenuamente - que isso definiria algo como `um grupo de profissionais reunidos com a intenção de solucionar dificuldades de seus clientes` mas dei-me ao trabalho de procurar a definição dicionarizada para `convênio`. Está lá, no Aulete, o verbete. E refere-se a: acordo com empresa, hospital ou rede associada que, a partir do pagamento de mensalidades, dá à pessoa (o conveniado) direito a atendimento médico (ou odontológico), exames, internações, cirurgias etc., conforme o disposto em contrato.
Pelo que temos podido notar, as empresas de convênios de saúde seguem à risca a definição fria e objetiva do dicionário. Nem de perto suas ações remontam à minha romântica - e totalmente equivocada - interpretação.
Na prática, a mecânica é a seguinte. Você sente os sintomas de doença. Não quer - e não deve - se automedicar e procura o médico. Tem a esperança de conseguir o de sua preferência ou o indicado por parentes e amigos, mas a espera de dois, três ou até quatro meses por uma consulta o obriga a usar o `uni-duni-tê` com os demais, por ordem alfabética. Liga e tem sua consulta marcada para dali a uma ou duas semanas. Quando a situação é mais preocupante - e você fica bravo - consegue para dali a dois, três dias.
Geralmente uma grande quantidade dos sintomas e crises já desapareceu com boas doses de chás e analgésicos nesse período. Aliás, desconfio que o prazo entre sua consulta e atendimento à sua doença deve ser pensado para isso mesmo: minar seus sintomas.
Chega a data da consulta. Você tem seu horário marcado, mas a ordem de atendimento é de acordo com a chegada. Acaba-se perdendo, invariavelmente, algumas preciosas horas na sala de espera, à custa de muita calma e credulidade.
No atendimento em si o médico não constata mais a maioria dos sintomas que você apresentava e que conseguiu equalizar com as receitinhas caseiras. Ele considera desnecessária a realização de exames específicos e o diagnostica com base na auscultação e tato, quando muito. Nestas horas eu penso sempre: “Será que este médico tem a competência do Dr. House, da série de TV?”. Se você insistir muito, o profissional, em ato de extremada bondade “lhe concede” uma radiografiazinha. Com um pouco mais de insistência, você pode ganhar um brinde: um examezinho de sangue ou urina.
Na saída, outra constatação: seus exames devem ficar prontos em um ou dois dias, mas o retorno ao médico para avaliar os resultados só pode ser agendado para dali a uma ou duas semanas. Conforme-se: sua consulta não é particular!
Chega o resultado e você aguarda pacientemente o retorno. No consultório, ouve: “Você não tem `aparentemente` nada”. Só uma inflamaçãozinha ou infecçãozinha que com uns R$ 80 ou R$ 100 reais deixados na farmácia vai ser “fácil” resolver.
Ouvi de uma médica, minha amiga, associada de plano de convênio que a maioria dos plantonistas de hospitais têm por praxe - voluntariamente - medicar seus pacientes para aliviar-lhes a dor momentânea, receitar uma medicação paliativa e recomendar ao conveniado agendamento de consulta com um especialista. Correndo o risco de novo equívoco, pergunto: esses plantonistas não deveriam se esforçar para solucionar o problema ao invés de apenas aliviar a dor?
E vamos às perguntas que incomodam: se é esse tipo de postura (própria do SUS, aliás), que nos empurra para planos caríssimos, por que nos planos caríssimos continuamos a ser tratados como se estivéssemos no SUS? Se pagamos planos caríssimos, por que continuamos obrigados a continuar também pagando o SUS? É de pirar...
Lamento informar que argumentos contra respostas honestas a estas perguntas só podem ser construídas antes da assinatura dos contratos. Depois, salve-se quem puder...
DEPOIS DE TANTAS RECLAMAÇÕES...
A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) publicou ontem no Diário Oficial novas regras para quem quiser trocar de plano de saúde – a chamada portabilidade. Segundo estimativas da ANS, 6 milhões de pessoas poderão ser beneficiadas com as novas regras, de acordo com o site oficial da Agência.
Em 2008 a agência recebeu mais de 11 mil reclamações contra as prestadoras de serviço. Com a entrada em vigor das novas regras em abril a desaprovação do consumidor pode custar mais que mero arranhão na imagem dos convênios.
Atualmente, o beneficiário de plano de saúde individual tem direito a sair de uma operadora e contratar outra a qualquer tempo. Porém era obrigado a cumprir o período de carência. Com a entrada em vigor da mobilidade com portabilidade isso acaba. Basta cumprir alguns requisitos (confira as regras no site www.ans.gov.br).
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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