Até o ano passado, Wilker Getúlio Correa deixava sua casa no Jardim Palma e ia para a escola de van. Na sala de aula estudava com outros oito colegas. A partir de fevereiro, sua rotina vai mudar. Ele estudará numa turma maior, com cerca de 25 crianças.
No lugar do veículo, irá a pé para as aulas, levado pela irmã Whitney, de 13 anos. Além dos colegas de classe e do transporte, a professora e o ambiente serão totalmente diferentes. Wilker, um menino de 7 anos e com Síndrome de Down, deixará a escola especial da Apae (Associação de Pais e Amigos do Excepcional).
Sua mãe acaba de matriculá-lo no segundo ano da Escola Municipal “Frei Lauro”, no Jardim do Éden.
O processo de transferência começou no início do ano passado, depois que uma resolução da Secretaria Estadual de Educação determinou que todas as crianças com deficiências mentais ou físicas fossem incluídas na rede regular de ensino (municipal, estadual ou particular) até 2010. Seria o fim da Apae de Franca.
A mãe de Wilker, Fátima Correa, 40, e outros pais de alunos especiais decidiram protestar. O medo era de que seus filhos fossem obrigados a enfrentar um desafio para o qual talvez não estivessem preparados. “A gente pensava que a Apae ia fechar. Todo mundo ficou com medo. Virou uma polêmica. A gente queria que nossos filhos permanecessem na Apae, onde estavam muito bem”, disse Fátima.
Os manifestantes procuraram a imprensa e o Ministério Público. Fizeram um abaixo-assinado, reuniões e, em agosto, conseguiram que uma comissão de especialistas fosse criada para averiguar as condições das crianças e indicar a transferência apenas para as que estivessem aptas. A comissão surgiu durante uma audiência promovida pelo Promotor de Justiça da Defesa das Pessoas com Necessidades Especiais, Fernando de Andrade Martins.
Hoje, cinco meses depois de sua criação, 102 alunos da escola especial da Apae foram avaliados. Wilker passou pelos testes. É um dos 19 aprovados e encaminhados para escolas comuns. No grupo, há crianças com Síndrome de Down, paralisia cerebral, distúrbio de aprendizagem e deficiências física ou mental. Elas têm de 7 a 9 anos. São moradores de Franca, Restinga, Cristais Paulista e Pedregulho. Nem todas irão para as séries correspondentes à idade.
Outros 200 alunos (totalizando 300), de 7 a 14 anos, ainda estão sendo avaliados. As análises são feitas uma vez por semana. Seis profissionais, entre psicólogo, pedagoga, fisioterapeuta, fonoaudióloga e neurologista, conduzem os trabalhos. Para o laudo, entrevistam os alunos e aplicam testes para analisar o desenvolvimento deles. “Somos a favor da inclusão feita com segurança e respeito aos envolvidos. Muitas crianças têm grande potencial de serem alfabetizadas em outras escolas; outras têm comprometimentos graves. Em Franca vamos conhecer cada uma”, disse a assistente social Sílvia Silva. A comissão será permanente.
Na cidade já se encontram exemplos da inclusão de deficientes nas escolas. A própria Apae faz encaminhamentos de seus estudantes desde 1982, data em que sua escola foi criada. No ano passado, cerca de 35 estudantes “receberam alta” da associação para estudar em outras instituições.
Wilker e a família vivem esse processo agora. Estão felizes. Mas a mudança os deixa ansiosos e cheios de incertezas. A discriminação é a maior preocupação. “Acho bom que ele vá para a escola comum não só para mostrar que consegue passar de ano, mas para conviver com crianças diferentes dele”, disse o vigilante Nilton Correa, 45, pai do garoto.
Sua mãe também aprova a transferência mas sabe que só o tempo mostrará se será bem-sucedida. “Fiquei um pouco assustada. Na Apae, ele já tinha o “mundinho” dele. Estava numa classe bem menor. A gente fica com o coração apertado, mas tem que esperar para ver o que vai acontecer”. Wilker e os 18 matriculados na rede regular continuarão com atendimentos ambulatoriais da Apae.
Wilker gosta de estudar. Desde os dois anos e meio é aluno da escola especial da Apae. O caderno que guarda em casa está cheio de desenhos e palavras. Ele gosta de brincar de professora com a irmã. Já conhece o alfabeto. Também sabe escrever o próprio nome e dos familiares. O menino parece empolgado com a mudança. “Eu gosto de estudar”, disse enquanto mostrava os trabalhos feitos na escola da Apae.
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