<p>A julgar pela quantidade de projetos pessoais que Ademir Pedro de Souza ainda quer realizar, é fácil deduzir que ele não pretende parar de viajar tão cedo. Empresário do setor de turismo - é dono da Nena Viagens, frota de ônibus e um hotel - Souza planeja roteiros que estão muito além do simples trinômio passaporte-avião-hotel. A começar por este ano, quando completará 40 anos de casado com Nena, sua companheira de empresa e viagens. Ademir quer comemorar a data dentro do Orient Express, o famoso e luxuoso trem europeu, inspirador de tantos romances, que sai de Paris em direção a Istambul, na Turquia. Depois farão a volta ao mundo em trens. Em seguida, um pulo no deserto do Atacama no Chile de carro, assim como também, será a viagem que quer fazer contornando o Brasil inteiro. </p>
<p><br />Sua paixão por trens não tem limites. Maior que isso apenas a sua paixão por viajar. Em 2008, foram 147 dias fora de casa, em mais de 105 mil quilômetros percorridos em aviões, carros, bicicletas, a pé e, obviamente, trens. No cálculo não entra a excursão de 13 dias que fez ao sul do País com um grupo de turistas no início de dezembro. Ademir de Souza recebeu a equipe de reportagem em sua sala na Nena Viagens. Um local lotado de lembranças e miniaturas que juntou depois de passar por 39 países ou ganhar de amigos. Durante a conversa mostrou, como sempre, seu humor ácido, mas mostrou também um lado menos conhecido, que o leva, junto com um grupo de missionários católicos, a passar um mês todos os anos em uma comunidade no interior do Piauí. Lá, disse aprender muito mais que ensina. </p>
<p>“Não temos nenhuma pretensão de evangelização; é uma troca de experiências. Na verdade, quando voltamos vemos o quanto desperdiçamos de recursos, o quanto consumimos. Apesar da pobreza, a essência daquelas pessoas é maravilhosa”. Em 2009 o empresário não pretende fazer a viagem, para, como disse, “não acostumar o olhar”. Estará, por outro lado, empenhado em outra frente: estender até Franca o percurso do Caminhos da Fé. O itinerário de fundo religioso, que leva fiéis a percorrer algumas cidades do interior paulista em direção a Aparecida em peregrinação, é semelhante ao de Santiago de Compostela, na Espanha, que ele também já percorreu. “Para mim, viajar não importa quando nem para onde. Eu amo a minha cidade, mas eu me sinto um cidadão-mundo. Toda viagem, por mais simples que seja ensina alguma coisa. Nem que seja para a cidade ao lado”, disse. <br />Confira os principais trechos da entrevista. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - O senhor foi quatro vezes nos últimos anos para o interior do Piauí em um projeto religioso. No que ele consiste?<br />Ademir Pedro de Souza-</strong> Vamos todos os anos para o município de Bom Jesus do Gurguéia, como parte do Projeto Igrejas Irmãs. É um grupo que passa o mês de janeiro com a população local. Não tem nenhuma pretensão de evangelização; é uma troca de experiências. Na verdade aprendemos muito mais que ensinamos. Com o que vemos lá, voltamos pensando como somos comodistas e desperdiçamos recursos. A essência do povo é maravilhosa. Como aquelas idosas cantam os seus benditos! É tocante. Aqui você anda 500 metros para ir a uma igreja. Lá há pessoas que andam 15 a 20 quilômetros para participar de uma celebração. </p>
<p><strong>Comércio - Há muita dificuldade por todos os lados?<br />Ademir -</strong> Existe muita dificuldade, mas nenhum bolsão de grande pobreza. Todos têm seu cantinho de terra e ali possuem sua condição de sobrevivência. Como não têm muita despesa, acabam conseguindo manter-se com pouco. O consumismo que nos obriga a ganhar cada vez mais para manter gastos cada vez maiores não há por lá. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor acredita que o brasileiro daqui imagina como é esse Brasil?<br />Ademir -</strong> Se as pessoas não conhecem nem Franca, não conhecem a sua própria cidade, como vão conhecer ou imaginar como se vive em um lugar a 1,8 mil quilômetros daqui? É a região mais carente do Piauí, que é dos Estados mais pobres do Brasil. Ninguém tem a mínima idéia. As pessoas demoram duas horas para encher com água uma lata de dez litros que vai a 20 metros de profundidade. Você chega para visitar as pessoas em suas casas e elas te oferecem essa água para beber, que mais parece um guaraná. Para disfarçar o gosto e a cor, usam suco em pó. A casa não tem móveis, nada. o chão é de terra batida. Mas o maior gosto para elas é te receber em casa. </p>
<p><strong>Comércio - O que o senhor traz de volta de uma experiência dessas?<br />Ademir -</strong> O mais interessante é a maneira de vida daquelas pessoas. Elas vivem mais próximas umas das outras. Todos conversam entre si. Aqui você entra em seu quarto e liga a televisão enquanto sua mulher liga a dela porque quer ver novela sossegada. A mocinha fica no telefone com o namorado e o filho jogando vídeo-game no quarto trancado. Para o meu dia a dia, por exemplo, vejo que tenho quase que um excesso de conforto. Lá há um sentido de comunidade que nós não temos mais.<br />Só isso já é uma riqueza que poucos de nós conhecemos. É ter o vizinho, a mãe e o pai, juntos, as crianças brincando. Quando um tem um problema numa colheita ou uma criação doente, todos ajudam. Quando outro vai construir uma capela ou uma casa, vão todos para ajudar. O dinheiro e os recursos estão nos trazendo um egoísmo patético. Mas se você perguntar: puxa, mas lá não tem nada? Eu diria que tem; tem tudo isso. É emocionante. Uma experiência magnífica. </p>
<p><strong>Comércio - Qual a moral disso tudo?</strong><br /><strong>Ademir -</strong> A moral é: “ninguém é tão pobre que não possa oferecer, nem tão rico que não possa receber”. As pessoas só não dão o que não têm.<br /></p>
<p><strong>Comércio - Como tudo é aprendizado, onde são os banheiros lá?<br />Ademir -</strong> Banheiro é onde você olhar. No quintal atrás de uma árvore. Mas nas casas é meio incômodo porque não tem porta e não existem vasos, como aqui. É no chão. E quando você está lá, numa posição já não muito confortável, vem o vento e balança a Cortina com as pessoas todas passando na frente da porta (risos)? É constrangedor, mas não tem alternativa. </p>
<p><strong>Comércio - Falando agora em turismo. Nas tuas viagens, o senhor consegue separar trabalho e lazer?<br />Ademir -</strong> Para mim, viajar não importa quando nem para onde. Eu amo a minha cidade, mas eu me sinto um cidadão - mundo. Quanto mais viajo, mais me realizo e mais valorizo minha cidade. Com toda viagem, por mais simples que seja, até aqui ao lado, existe algo para se aprender. Não existe aquela que não te enriqueça. O dinheiro de uma viagem é um investimento que você faz na sua vida. </p>
<p><strong>Comércio - Após viajar tanto, há algum lugar que pudesse eleger como o melhor?<br />Ademir -</strong> Fica muito difícil de responder. Eu não diria um lugar só. Eu adoro andar de trem por todos os lugares que vou. Eu vou à Europa e fico andando de trem o dia inteiro. Quando falo o dia inteiro, são 24 horas mesmo. Eu durmo nos trens. Para mim é um orgasmo. Você vai passando por lugares incríveis. Os trens são ótimos, luxuosos, limpos, confortáveis. <br />Alguns lugares, como a Turquia, com a sua riqueza histórica e seu misticismo, me atrai muito. Outro lugar é Roma, onde já fui mais de 20 vezes. Gostaria de morar lá, apesar dos romanos (risos). Assim como apesar dos franceses, Paris tem um charme inigualável.<br />Na América, meu lugar preferido é o Canadá. Mistura o que há de melhor nos Estados Unidos e na Europa. É um país perfeito, mas o frio o castiga durante oito meses do ano. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor já viajou por 39 países. Há algum lugar que não tenha lhe agradado?<br />Ademir -</strong> Encontrei certo desconforto na Rússia, ainda no tempo da União Soviética. A comida fugia quase que totalmente ao nosso paladar. De modo geral eu não sofro em viagem. Como de tudo o que você pensar. Mas na Rússia a comida e o tolhimento da liberdade me incomodaram um pouco. Mas como tenho um projeto de fazer uma volta ao mundo de trem, começando pela Transiberiana, terei de voltar lá. </p>
<p><strong>Comércio - Boas viagens estão associadas a altos gastos, custos de tarifas, coisa que não é para todo mundo?<br />Ademir -</strong> Existe o viajante que não vê destino. O que ele quer é sair para pegar estrada. Tem um orçamento e vai de acordo com o que tem. Outros têm pouco e não vão para lugar nenhum. A falta de dinheiro não é desculpa para não viajar. Existem possibilidades para todos; é só querer. </p>
<p><strong>Comércio - O senhor procura conhecer a história do país ou do lugar que vai visitar? Procura se informar sobre os costumes desses lugares?<br />Ademir -</strong> Sou muito relaxado para isso. Sempre deixo acontecer, sem planejar nada. Gosto da descoberta. A grande maioria das pessoas que vai comigo se prepara mais do que se deve. De todo modo, é bom ter algumas informações sobre cuidados que devem ser tomados. Como nos países muçulmanos onde você não deve cruzar as pernas e deixar a sola dos sapatos à mostra, por exemplo. Cumprimentos com beijo no rosto entre homens em alguns países são normais. Já com mulheres é um ato grave. </p>
<p><strong>Comércio - Sua agência é procurada por mochileiros? Para esse tipo de turista qual dica o senhor daria?<br />Ademir -</strong> Eu mesmo sou mochileiro. Já fiz mais de 20 viagens com uma mochila nas costas. É uma das maneiras mais práticas de se viajar. Durante 40 dias pela Europa eu levo uma mochila de seis quilos; nada mais. Procuro fazer o que for mais prático. Compro os meus bilhetes aqui, pois sai mais barato no Brasil (pode colocar isso aí). Lá na Europa, por exemplo, se der fome, vou às mercearias e compro meu queijo, iogurte, vinho, pão. Nos trens é normal comer nos carros durante as viagens. Vale se hospedar nos hotéis e albergues próximos às estações ferroviárias que têm taxas mais baratas. Estudantes com carteirinha internacional têm diversos descontos. Cada um faz o seu padrão de turismo. Quando alguém vem aqui eu tenho verdadeira alegria de mostrar às pessoas que vão viajar o que eu conheço. </p>
<p><strong>Comércio - Voltando aos lugares que o senhor aprecia, todos os citados ficam no exterior. E no Brasil, não tem nada que lhe agrade?<br />Ademir -</strong> O Rio de Janeiro é o lugar mais lindo do mundo. Não tem lugar parecido. Gosto de Salvador, com alguma simplicidade, do Pantanal, do Amazonas. E gosto muito de Foz do Iguaçu. Quase sempre as pessoas pensam na região de forma pejorativa por causa dos sacoleiros, no entanto Foz é um lugar lindo. No Brasil muita coisa me agrada. Gosto das cidades históricas, das praias, dos museus, dos botecos. </p>
<p><strong>Comércio - Com tantos quilômetros rodados, não é difícil ter havido uma gafe, uma mancada?<br />Ademir -</strong> Sou a pessoa que mais consegue dar mancada. Não é exagero, mas acabo cometendo em todas as viagens. Sou muito folclórico. </p>
<p><strong>Comércio - Já pensou em escrever um livro sobre suas viagens?<br />Ademir -</strong> Já pensei, mas sou muito preguiçoso. E eu escrevo em máquina de datilografia e não no computador. Mas se eu fizer a volta ao mundo de trem, acho que vou escrever. Tem muita história que merece ser contada.</p>
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