Quem não se lembra deles armados nas praças das cidades? Dos palhaços caminhando pelas ruas à frente dos caminhões mostrando feras enjauladas? Gritava e dançava o clown de roupas coloridas e largas a propagandear a estréia de mais um espetáculo: "hoje tem goiabada? Tem sim senhor. Hoje tem marmelada? Tem sim senhor. E o palhaço o que é? É ladrão de mulher". Era uma festa para crianças especialmente das classes mais humildes, correr pelas ruas da periferia participando da alegre algazarra que a chegada do circo proporcionava. Lembro-me também, com saudade, que no século passado muito participei dessas referidas folganças.
O primeiro imperador romano Otávio Augusto – 27 a 14 a.C. – diante das dificuldades surgidas com o crescimento urbano de Roma, viu crescer o número dos problemas sociais, entre eles o desemprego provocado na zona rural pela escravidão.
Ainda hoje prevalece o temor da ameaça deste grande mal na vida das populações. Para abrandar a revolta dos romanos, o imperador instituiu a política do pão e circo. A finalidade principal era oferecer aos romanos alimentos e diversão. Diariamente aconteciam lutas entre os gladiadores nos estádios e distribuição de comida com o objetivo de mitigar a insatisfação. O mais famoso palco a servir de arena, o Coliseu de Roma, permanece testemunhando a história da época da compra de mentes humanas, apaziguando opiniões de um povo, levando-o ao esquecimento através do divertimento criado com esse fim.
Pão e circo como ação política, foi solução também instrumentada por Otávio, a formar inumeráveis seguidores, pródigos em distribuir espórtulas ou recursos com exclusivo fito de granjear sentimento de aprovação de gerenciamento infestado de mentiras e corrupção, constante e veementemente ignorada e negada por seu agente principal. A boa ética recomendaria a aplicação na educação e saúde, em aprimoramento do exercício profissional de qualidade criando emprego e proporcionando ao cidadão o direito honroso de viver com o resultado do seu trabalho sem carecer da esmola oficial.
Honoré de Balzac (1799-1850), escritor francês, em sábias palavras afirmou: "se não houvesse as tabernas, Paris teria uma revolução por semana". Trazendo a frase para o contexto de nossa crise, para nossos dias, pense no efeito que teremos com a suspensão de atividades de entretenimento. O circo moderno mudou mas o povo continua gostando de circo, aplaudindo cheio de vibração o resultado apontado pelo sonômetro com índice superior a 70% em decibéis de marolinhas e sifus.
Que grande saudade da velha e desgastada lona estendida na praça de minha vila, do palhaço com cara de tantas tintas arrastando no picadeiro o cachorro de pano. Tanta saudade eu sinto dos meus Arrelias, Carequinhas, Chique-Chiques e Piolins espalhando risos na santa inocência de crianças.
O circo mudou. Instalou-se nos palácios e já não pisa em chão batido. Encena seus dramas em mármore e alabastro onde o poder brinca de mocinho.
Hoje tem marmelada? Tem sim senhor, na venda de sentenças. Hoje tem goiabada? Tem sim senhor, nos escândalos de cada dia: políticos em corrupção, impunidade, imunidades parlamentares. E o palhaço, quem é? O povo...
Garcia Netto
Jornalista
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