Considerada uma das ilhas de excelência do País, a Unesp de Franca é freqüentada em sua maioria, por alunos oriundos de classes sociais mais abastadas vindos de escolas privadas e os “outros”, como são identificados pelos veteranos, os apontados pelo sistema de cotas e de escolas públicas.
A Unesp em Franca é o resultado da luta corajosa e despreendida de muitos. Em Direito, História, Serviço Social e Relações Internacionais, aprende-se a valorizar a memória, a necessidade de empreender esforços para sistematizar e documentar. Infeliz do povo que joga no lixo sua memória. Infeliz do povo que não tem isso lembrado ou estimulado por professores, sejam eles mestres ou doutores.
O governador Adhemar de Barros sempre foi reticente em atender aos pedidos da cidade por uma universidade estadual, capaz de fazer diferença na vida local e regional. Costumava rechaçar os insistentes pedidos de seu Assessor de Comunicação da época, Corrêa Neves, dizendo que precisaria atender a outras regiões do Estado. A causa não era papel do itirapuanense Corrêa Neves, mas, em sua cabeça, batalhar pela instalação de um campus da principal instituição de ensino do Estado na cidade, era compromisso de honra.
Tanto fez que acabou conseguindo. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho” veio. Se não estou enganado, a instituição deve estar comemorando 35 anos, aqui.
Passaram por sua direção mestres francanos e de outras paragens. As idas-e-vindas de bons ou não tão bons relacionamentos com a vida da comunidade se explicava pela presença, na direção, de professores da região.
A política unespiana sempre foi fechada. As várias congregações internas decidiram sempre intramuros. A capacidade de relacionamento, na média da observação, sempre esteve aquem do que a cidade e a região demandavam. Contam-se nos dedos de uma única mão, teses, pesquisas ou serviços colocados a serviço da comunidade regional, a assistência judiciária e o cursinho vestibular gratuito, dentre estes poucos.
Estive, ano passado, em visita à Unesp. O diretor que me recebeu deixou claro, em todos os momentos, a discordância da comunidade unespiana de Franca sobre a forma com que os meios de comunicação do GCN cobram presença mais sistemática da instituição na vida comunitária e dos critérios factuais que o Comércio usou para divulgar desrespeitoso ato de “protesto” promovido por alunos ao reitor da universidade presente na cidade, há alguns anos. Em miúdos: fizemos “exposição desnecessária da instituição...”. O triste episódio escatológico de um estudante frente a um diretor unespiano é “exposição desnecessária da instituição”. Para este Comércio, os francanos e todos os que tomaram conhecimento do fato foi grotesca eva-cuação. Tanto que o aluno foi expulso da instituição de ensino.
O diretor que me atendeu também falou da escolha do nome de Corrêa Neves para o novo campus da instituição. Disse que tudo foi feito “à revelia”; que não houve debate; que nenhum campus da Unesp tem nome, exceção ao da própria instituição que homenageia Júlio de Mesquita Filho (por coincidência, também um jornalista). E que dar nome a um campus geraria precedente perigoso porque o mesmo poderia ser pleiteado por outros. Perguntei-lhe sobre a lei. E ouvi: “cumpriremos porque somos legalistas...”. O resto da história está no texto publicado na capa do Comércio de quinta-feira pela família Corrêa Neves.
Ora! Se precedente se tornasse, não seria exatamente esse um início de possibilidade de comprometimento dos campi unespianos com as cidades onde estão instalados? O precedente, anunciado quase como um pecado, não poderia ajudar a instituição a aproximar-se mais da realidade e da história das várias comunidades que as agasalham?
A Unesp de Franca erra ao se manter encastelada, ao não se relacionar adequadamente com a cidade, pelo menos no caso de Franca. Há bons mestres e excelentes alunos lá dentro. E há os vaidosos e elitistas, estes que mancham a reputação unespiana duramente conquistada, inclusive nesta cidade. A Unesp local deve muito à gente francana, às instituições locais, aos meios de comunicação daqui e principalmente a homens como Corrêa Neves. Logo ele, que acreditou ser esta a escola ideal para a democratização do ensino entre os brasileiros francanos ou oriundos de onde quer que seja, pertencessem eles a quaisquer classes sociais. Acertou quanto à competência. Não fossem os homens e suas deselegâncias...
A CARA E A CORAGEM
O “Não, Obrigado” - nota principal da coluna Painel da Folha de São Paulo de ontem - expressou a possibilidade de que o texto da família Corrêa Neves, publicado na quinta-feira, tenha influenciado o governador Serra a modificar a data de inauguração do novo campus da Unesp em Franca. No convite enviado pela instituição não consta obediência à Lei Estadual 11.912, de 24 de março de 2005, que deu o nome do jornalista Corrêa Neves às novas instalações. Ao que parece, o governador não gostou.
A CARA E A CORAGEM II
A Editoria de Opinião do GCN tem recebido dezenas de cartas, e-mails e manifestações sobre o caso. Na maioria, as pessoas se apresentam com nome, endereço, telefone. Outros - poucos - remetem mensagens repletas de xingamentos e críticas, mas não assinam, não oferecem condições para que publiquemos também suas vozes discordantes. Pena. Fui recebido por um cavalheiro na Unesp, mas o senti preso demais às filosofias de alguns poucos que certamente não falam pela instituição como um todo. Então, me perdoem: corporativismo sem mérito, não!
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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