A história se repete todos os anos em todos os Natais. Não tem mesmo jeito: Papai Noel não dá o mesmo tratamento para os meninos ricos e pobres. E os menos favorecidos passam a curtir - ainda que possam não perceber - uma terrível inveja. Quantas marcas profundas o brinquedo que não veio deixa na alma inocente das pobres criancinhas esquecidas...
Numa semana que antecedia o Natal, num desses anos passados, parei na rua para assistir a uma cena diferente, curiosa: um simpático negrinho, de olhos inteligentes e estatelados, admirava os brinquedos exibidos na vitrine de uma bonita loja.
Estava fascinado pelo espetáculo de luzes e cores. Teria uns seis anos, quando muito. As palavras do poeta Décio Bittencourt, muito melhor que as minhas, poderiam defini-lo: “A roupinha velha, a camisinha suja, o sapatinho roto, o ensebado gorro / garoto de vida bem pior que vida de cachorro /Era um menino vira-lata, brasileiro...”
Era assim mesmo o menino que eu vi, ali, de olhar esbugalhado diante de todas aquelas luzes e cores. Não imagino, até hoje, o que poderia ele esperar, ali parado, os olhos quase saltando daquelas órbitas subnutridas.
Curioso, parti para uma desinteressada investigação, disposto a bisbilhotar um pouco sobre a vida daquele menino.
- Como é? - fui perguntando com certa intimidade para não inibir aquela criança, procurando deixá-la à vontade. O que você pediu para o Papai Noel?
Ele me olhou de relance, sem dar muita atenção àquela minha conversa mole e voltou os olhos para a vitrine onde cintilavam os brinquedos maravilhosos.
- Hein, garotão? O que foi que você pediu? - insisti.
Ainda com os olhos pregados naquele encantamento, ele respondeu, indiferente:
- Nada.
E antes que eu fizesse uma nova pergunta, que, por sinal, já estava na ponta da língua, ele se apressou em completar a resposta, segurando, envergonhado, mas valentemente, uma vontade danada de chorar:
- O ano passado eu pedi uma bola, só uma bola de futebol, e não ganhei. Fiquei muito triste e com muita raiva. Agora não vou pedir nada.
E antes que eu pudesse detê-lo, ele saiu correndo para chorar escondido, perdendo-se no meio das pessoas que enchiam as ruas naquela manhã calorenta de dezembro.
Foi, então, a minha vez de ficar ali, parado, sem ação, os olhos também estatelados, assistindo à festa da garotada a escolher seus brinquedos. Não precisei, porém, correr para chorar escondido. Eu estava de óculos escuros... Lembrei-me desta história nesta véspera de Ano Novo. Este mundo continua precisando de esperança.
Esperar pelo melhor, mesmo e apesar de nossas descrenças.
Henrique O. Marconi
Advogado Tributarista e autor de livros
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