De costas para o beco


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Muito grande, imenso mesmo é o poder da literatura. Essa entidade, criada exclusivamente através da palavra, tem a capacidade de criar existência onde não existe nada. A poesia, expressão literária das maiores, consegue então extrair emoções importantíssimas de um universo onde só impera a rotina, o tédio e a repetição constante. Manuel Bandeira, além de dar nome à principal rua de Miramontes, bairro onde Franca nasceu, representa o que há de melhor na poesia brasileira. Seus dotes de poeta inspirado podem ser conferidos no sintético texto em versos de “Poema do Beco”: Que importa a paisagem, a Glória / A baía, a linha do horizonte? / Se o que eu vejo é o beco”. Fácil de entender, não? Difícil mesmo de interpretar é a interpretação dos economistas sobre a situação financeira. Principalmente a atual, que se prima pelo encolhimento dos lastros de capital em todo tipo de empresa, seja ela industrial ou comercial. Voltando para os versos de Manuel Bandeira, o poema foi feito em cima de uma contradição, de um paradoxo: beco x amplidão. Como se sabe, beco é uma rua estreita, curta e sem saída. O latim (estuda-se essa língua na França, na Alemanha..., mas no Brasil, não) mostra tudo de uma palavra: via (caminho) + ecu (sufixo diminutivo) = viecu > veco. Pronto, houve depois, na transposição para a língua portuguesa, somente a troca da letra V pela B (veco > beco). No aspecto semântico, beco ganhou outras figuras. A palavra pode também significar conotativamente: dificuldade, aperto, situação desesperada ou problema irremovível, insolúvel. Tudo isso, quando alguém diz pleonasticamente que está em um beco sem saída. Pelo lado oposto, paisagem representa toda extensão alcançada pelo olhar. Por sua vez, linha do horizonte limita o panorama onde a vista consegue chegar. Já, somente horizonte torna-se sinônimo da própria paisagem. Baía é um trecho do litoral. Geograficamente é o espaço que se transforma em praia. Simboliza também o desdobrar no horizonte, para o campo de quem olha o mar, o infinito. Suprimindo a acento de “baía” tem-se “baia” (compartimento feito de tábuas, para recolher cavalo ou outro animal similar). Contraditoriamente, ficando apenas o pingo no “i”, muda-se todo o sentido e remete à idéia de beco. O acento no “í”, ao contrário, confere alargamento no horizonte. Glória, no poema, é a denominação de um bairro do Rio de Janeiro. Localidade da Zona Sul carioca, era conhecida por ter uma das mais belas praias da Cidade Maravilhosa. Quando os versos foram escritos, a visão do mar, pelo bairro da Glória, era um esplendor. Hoje, o Aterro do Flamengo destruiu toda a paisagem, não deixou margem para nova inspiração. Aliás, poeta tem muito de premonição, enxerga as coisas antes dos outros. O ano que se fecha amanhã não deixa de ser um beco temporal. Nada mais é que um bloco do tempo se encerrando em si mesmo, sem saída nenhuma. Como o momento pede mudanças ou novas posturas, vire as costas para 2008 e olhe então para 2009, imaginando que ele representa uma nova paisagem, um resplandecente horizonte. Mas, sem a linha para limitar os nossos atos! Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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