<p>Inconformado. Essa é a palavra que melhor define o empresário Saulo Pucci Bueno, diretor do Grupo Amazonas, durante entrevista concedida ao Comércio na tarde da segunda-feira, dia 22. A empresa que há 60 anos iniciou sua produção de solados em Franca demitiu centenas de trabalhadores de uma só vez. Quatro dias antes, na sexta-feira, 19 de dezembro, 380 pessoas - a maioria da unidade de solados - assinaram o aviso. No dia seguinte às demissões, Saulo viajou para uma fazenda da região, ficando incomunicável. A princípio parecia evitar a imprensa. Na tarde da última segunda-feira, depois de ser procurado pela reportagem na empresa e por meio da assessoria de imprensa, ele mesmo bateu à porta do Comércio. Estava pronto para uma entrevista que duraria uma hora. </p><p><br />Cauteloso, evitou falar em valores de dívidas, produção atual e prejuízos por manter trabalhadores ociosos por quase um ano na linha de produção. Em alguns momentos da entrevista, se mostrou muito emocionado. Segurando o choro, falou pausadamente sobre as demissões. Mas não conseguiu esconder os olhos úmidos. Disse que a família Pucci relutou quanto às demissões, mas era chegado o momento de fazê-las. “Estávamos com uma padaria para mil pães por dia e o mercado estava comprando apenas 500 pãezinhos. Então não havia como. Tinha que enxugar”. Para quem lidou com pessoas a vida inteira e construiu boa parte da carreira, na área de Recursos Humanos, a decepção foi inevitável. “A maior frustração que existe para um empresário decente é fazer demissão”.</p><p><br />Como alguns funcionários estavam em férias, o aviso da demissão chegou por telegrama. “Não havia outra maneira, mas para o restante foi falado pessoalmente, de um por um, das áreas comerciais, administrativas e muita gente da área industrial”, disse Saulo. Ainda de acordo com o empresário, a economia que a Amazonas terá com as demissões será o suficiente para quitar as dívidas trabalhistas (não quis revelar quanto). Da mesma forma, Saulo Pucci preferiu não falar sobre outras dívidas da empresa. “É uma coisa interna. Posso dizer que toda dívida está declarada, negociada e sendo paga”. Com as demissões, a Amazonas manterá apenas metade da produção de solados, em Franca. A empresa já chegou a 105 mil pares por dia. Serão mantidas a Quimicam (adesivos) e a Painel (transportadora). A Componam (modelagem) foi incorporada à unidade de solados e a Matrizam terceirizou seus serviços.</p><p><br />Saulo assistiu à palestra promovida pelo Grupo “Corrêa Neves de Comunicação” no dia 3 de dezembro com o consultor calçadista Zdenek Pracuch. Concorda com Pracuch quando ele disse que a crise mundial já bate às portas das indústrias calçadistas e que as empresas precisam enxugar seu quadro de funcionários, caso contrário, irão à falência. “A gente tem acompanhado com muita atenção e preocupação a evolução dessa crise mundial. Como o senhor Pracuch bem disse, o setor de calçados é feito por segundos, quilos e centavos. Empresa nenhuma pode se dar o luxo de não olhar seus centavos, quilos e minutos”. Apesar do envolvimento emocional com os funcionários, Saulo Pucci seguiu a orientação dos consultores da empresa e os conselhos de Pracuch e demitiu. A seguir, confira os principais trechos da entrevista. Ele explica o porquê das demissões, como fará o pagamento dos funcionários e o que sentiu após ter tomado essa decisão.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - O que de fato aconteceu com a empresa Amazonas?<br />Saulo Pucci Bueno </strong>- A Amazonas estava inchada, muito grande, esperando um setor novo que fosse crescer, “agora vem o dólar, a Couromoda, a Francal, a Fenafic, a FCA, o Obama, enfim...”. Mas não dava para esperar mais. Embora seja uma data horrível, véspera de Natal, e nós da família estejamos extremamente chateados, tristes com isso tudo, a Amazonas tomou uma atitude que ela não podia esperar nem mais um segundo. Foi véspera de Natal, lamentavelmente, mas se fosse na véspera de Réveillon, Carnaval, Semana Santa, teria de ser tomada de qualquer jeito. Ela tinha que enxugar. Tinha que se adequar ao tamanho do mercado e foi isso que a gente fez.<br /><br /><strong>Comércio - A empresa perdeu alguma linha de crédito específica?<br />Saulo Pucci</strong> - O crédito não existe mais hoje. E o pouco que há está caríssimo. Os bancos estão com medo. Há uma crise de confiança muito grande. O banco de fora não empresta para o banco interno achando que não vai dar certo. Nessa crise de crédito e confiança tudo parou. E conseqüentemente a Amazonas também foi envolvida. <br />Mas não foi esse o motivo. Não foi a falta de linha de crédito. O problema sério foi o seguinte: nós estávamos grandes demais para o mercado, infelizmente. Estávamos com uma padaria para mil pães por dia e o mercado estava comprando 500 pãezinhos. Então não havia como. Tinha de enxugar.<br /><br /><strong>Comércio - Os funcionários estavam ociosos na linha de produção?<br />Saulo Pucci</strong> - Todo mundo estava aguardando. Tenho certeza absoluta. Lógico que da mesma maneira que estamos chateados, aqueles que perderam o emprego, é óbvio, estão muito mais chateados e preocupados. Mas tenho certeza de que se você conversar com cada um deles, eles diriam que a empresa não poderia ficar do tamanho que estava. Principalmente o setor de solados aqui de Franca. <br /><br /><strong>Comércio - Quando começou a crise da Amazonas?<br />Saulo Pucci </strong>- Este ano (início do ano) a produção foi caindo e estávamos sempre aguardando (as feiras). E o mercado não reagia. A posição da empresa, da família, sempre foi essa: o último furo é a dispensa. Somos contra, é extremamente desagradável. Esses últimos dias para nós têm sido terríveis. Não tem ninguém feliz. É péssimo. Mas essa decisão teve de ser tomada. <br /><br /><strong>Comércio - Entre os funcionários havia um boato de que a Amazonas chegou a cogitar a demissão de um número maior, quase 700. Isso é verdadeiro?<br />Saulo Pucci </strong>- A princípio pensou-se num número maior. Mas nós ainda acreditamos que é possível ficar com o número de funcionários com que estamos, principalmente a partir do instante em que o dólar se estabilizar na faixa de R$ 2,10, R$ 2,20. Então a gente conservou mais esse grupo de funcionários ainda. <br /><br /><strong>Comércio - Qual o número real de funcionários demitidos? <br />Saulo Pucci</strong> - Na faixa de 360 a 380. E por que isso? Porque há alguns que nós ainda estamos fazendo acertos.</p><p><br /><strong>Comércio - No auge, quantos funcionários a empresa chegou a ter e qual foi a maior produção de solados?<br />Saulo Pucci</strong> - Já chegamos a ter em torno de 3 mil funcionários e a fazer 105 mil pares/dia de solados.<br /><br /><strong>Comércio - Como a empresa planejou pagar as dívidas trabalhistas?<br />Saulo Pucci </strong>- Foi tudo acertado com o sindicato (da Borracha). A rescisão será paga em três parcelas, janeiro, fevereiro e março, e o restante, que é o FGTS, será pago de acordo com o que o funcionário ganha. Aqueles que recebem menos, como será feita uma faixa mensal, vão receber mais rapidamente. Até o final de 2009, de 70 a 75% dos funcionários terão recebido 100% do FGTS. Vamos dar uma cesta básica durante todo o período que durar o afastamento e contratamos uma empresa para tentar fazer a recolocação desse pessoal. Vamos tentar a recolocação e rezar para o mercado reagir.<br /><br /><strong>Comércio - Há quanto tempo a empresa não deposita o FGTS?<br />Saulo Pucci</strong> - Depende funcionário. Há uns que estão mais atrasados,outros menos. (Há funcionários que não têm o FGTS depositado desde 2006.)<br /><br /><strong>Comércio - Como fica a produção da empresa a partir de agora?<br />Saulo Pucci</strong> - Vai ficar do tamanho do mercado. <br /><br /><strong>Comércio - O que será feito com o maquinário?<br />Saulo Pucci</strong> - Vai ficar tudo parado. <br /><br /><strong>Comércio - E as outras empresas do Grupo, como estão?<br />Saulo Pucci </strong>- Nas unidades do Ceará, da Paraíba, da Bahia, na Quimicam e Transportes de Franca, não mexemos em absolutamente nada. Aliás, a Quimicam vai muito bem, obrigado, tanto em Franca quanto na Paraíba. A Matrizam foi incorporada dentro da (unidade) Amazonas e nós terceirizamos praticamente 90% do que a gente fazia. A Componam também está dentro da Amazonas.<br /><br /><strong>Comércio - Por que, então, demitir em Franca e não nas outras unidades fora da cidade?<br />Saulo Pucci</strong> - Porque algumas empresas estão trabalhando bem, com planejamento de produção. Franca sentiu bastante; o golpe aqui foi forte. A Amazonas, por decisão, não quis demitir. E ficou grande demais para o mercado. Se tivesse tomado essa decisão há mais tempo... Mas levamos até a hora que não deu mais.<br /><br /><strong>Comércio - Não havia como desenvolver ações de marketing ou vendas para recuperar a capacidade de mercado da Amazonas de Franca?<br />Saulo Pucci</strong> - Ela continua ocupando espaço dentro do mercado. Ela vai continuar operando com capacidade reduzida. Se o mercado se recuperar amanhã, o equipamento está todo aí é só recontratar e pôr para funcionar. Não vamos tirar nenhuma máquina daqui.<br /><br /><strong>Comércio - Há muitas empresas pequenas que fabricam solados e outros artigos de borracha em Franca. Essa concorrência atrapalhou os negócios da Amazonas?<br />Saulo Pucci</strong> - Tudo atrapalha. Mas adiamos as atitudes mais duras, mais desagradáveis. A Amazonas tinha que parar e acho que parou na hora certa.<br /><br /><strong>Comércio - Qual foi o critério de seleção para a empresa demitir?<br />Saulo Pucci</strong> - Vamos deixar de fazer algumas etapas que a gente fazia, alguns tipos de produtos. Então, os funcionários que trabalhavam com os produtos que não existem mais foram os que saíram.<br /><br /><strong>Comércio - O senhor confirmou que chegou a estudar um corte maior, mas seguraram o máximo. É possível que até o final do ano que vem, mais demissões ocorram dentro da Amazonas?<br />Saulo Pucci</strong> - Espero que não. Acho que o mercado brasileiro não vai ficar ruim eternamente. Não é possível piorar. O mercado vai reagir. Os bancos não vão poder ficar enclausurando esse dinheiro todo. <br /><br /><strong>Comércio - A empresa está com pedidos para se manter, ao menos, até março?<br />Saulo Pucci </strong>- Estamos zero a zero com janeiro e fevereiro. E outra coisa, o setor químico nosso está muitíssimo bem. É só uma empresa que está com problemas: a de solados. <br /><br /><strong>Comércio - As gigantes calçadistas (Samello, Sândalo e Agabê) foram demitindo até fechar. Algumas passaram a licenciar seus produtos. O setor de solados caminha para essa terceirização?<br />Saulo Pucci</strong> - Alguns produtos já não vamos fabricar mais. O que acontece é que se o mercado reagir e funcionar, outros produtos continuarão sendo feitos. Se não, daqui a algum tempo você senta e avalia. Mas não acredito que continue ruim ou que possa ficar pior. Com o enxugamento e com as linhas que vamos fazer, não vejo necessidade disso (terceirização).<br /><br /><strong>Comércio - Pessoalmente, como é ver a unidade de solados encolhendo dessa maneira?<br />Saulo Pucci </strong>- Dá vontade de morrer. Vontade de chorar. É muito difícil, muito desagradável. É o fim... Uma sensação de impotência. Não tem nada pior. Minha formação sempre foi na área de recursos humanos. É uma coisa que gosto de fazer. Dei aula, adoro. A maior frustração que existe para um empresário decente é fazer demissão. Fechar uma fábrica, quebrar uma máquina, parar de fabricar um produto... Mas a demissão é a pior coisa que existe. E o investimento que você fez em pessoas, você preparou aquela turma para uma reação, um crescimento que não acontece. Então, não tem nada pior, mais frustrante e desagradável. Se eu pudesse entrar debaixo da terra e sumir era a melhor coisa que podia fazer.<br /></p>
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