Lentilhas para dar sorte


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Nos textos sagrados e nas literaturas são muitas as metáforas que remetem aos grãos como representação do ciclo vida/morte/resssurreição. Cristo, em lindíssima e insuperável parábola, nos fala da necessidade que tem o grão (no caso, o de trigo) de morrer, para que a vida se reinstaure na nova planta em formação. Há pois vida na morte, como há vitalidade no ano que termina, acreditam os cristãos e todos os otimistas. Nada melhor portanto que pratos com grãos para rememorar a beleza de se repensar os ciclos da existência como passíveis de renascimento e não de extinção. Neste contexto a lentilha ocupa lugar de destaque na mesa de Ano Novo. São muitas as histórias que se contam para justificar sua presença na festiva culinária de festas. Seu formato é parecido a pequenas moedas; elas crescem quando cozidas; têm histórico milenar, superando todas as pragas: aparecem na dieta de egípcios e gregos. E há pelo menos 8 mil anos os persas comiam lentilhas. Mas é no Velho Testamento que se encontra a passagem célebre que coloca em cena um catalisador prato de lentilhas e dois irmãos. Esaú e Jacó, eis os nomes dos gêmeos que disputaram por duas vezes a primogenitura. Ser primogênito entre os hebreus significava muitos privilégios, um deles o de suceder ao pai e herdar dele os bens e o prestígio. Pois o primeiro nascido desses dois gêmeos era Esaú. Por duas vezes Jacó tentou burlar o direito de nascença solidamente arraigado na cultura judaica. Numa delas, Esaú voltava cansado da caça, sem nada em mãos e com muita fome, quando foi seduzido pelo aroma de um guisado de lentilhas que o irmão cozinhava. Primeiro pediu e depois suplicou um prato a Jacó. Este propõs um negócio: “Dou-lhe desta sopa se renunciares (tratavam-se por tu, é no Gênesis, já se vê) à primogenitura”. Com fome demais ou interesse de menos, Esaú aceitou. A sutileza de um e a ignorância de outro traçavam ali mudança de rumo em suas histórias complicadas. Porque devido a este episódio houve brigas, claro, arrastando o pai Isaque e a mãe Rebeca, que, dizem as más línguas, evidenciava suas preferências por Jacó. Mas um dia Jacó se cansou de tanta confusão e foi embora, servir a Labão, “pai de Raquel/ serrana bela/ mas não servia ao pai/ servia a ela/ e a ela só por prêmio pretendia”, como poetaria Camões séculos depois. No Brasil, Machado de Assis, seduzido também por tal enredo, fez de Esaú e Jacó protagonistas de um de seus melhores romances. E que fim levou Jacó? Enriqueceu e conquistou prestígio, teve 12 filhos que se tornaram os fundadores das 12 tribos de Israel. Como sempre se quer explicar as coisas, os primeiros ficcionistas cismaram de dizer que o sucesso foi por conta do prato de lentilhas que todos os dias o homem preparava para si. Entrou o grão para o imaginário popular e hoje são milhões os que comem lentilhas no Ano Novo, para dar sorte, seja lá o que esta palavra signifique para cada um. Existem muitas formas de prepará-las. Os grãos marrons, verdes, róseos aparecem sob a forma de sopas, cremes, purês, saladas nos cardápios de meio mundo. Na mesa árabe, misturadas a arroz e cebolas compõem um clássico. É a nossa receita de hoje. Cada família árabe tem a sua. Esta que experimentei me foi ensinada por uma amiga - Dalila Haber, a quem agradeço. Depois de escolher e lavar as lentilhas, deixe-as de molho por duas horas. Lave e escorra o arroz. Pique as cebolas - na vertical ou em rodelas, importante é que os aros não fiquem muito finos. Refogue-os em metade do azeite de oliva, mexendo sempre para que dourem e não queimem. Reserve. Refogue o arroz na outra medade do azeite de oliva. Junte as lentilhas e metade da cebola frita. Mexa bem. Junte água fervente na qual tenha dissolvido dois tabletes de caldo de galinha. A água deve cobrir o arroz. Espere secar e se os grãos não estiverem macios, coloque mais água. Deve ficar cozido mas não empapado. Na hora de servir, coloque em uma travessa e espalhe por cima as cebolas reservadas. Ou enforme, como se vê na ilustração desta página, arrematando com a cebola. EXTRAS Veja outros elementos que não podem faltar na virada do ano, acessando o link: http://gcnreceitas.wordpress.com/curiosidades/tradicoes-gastronomicas-de-reveillon/

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