Não é a capacidade de lidar com pessimismo ou otimismo o melhor caminho para resolver os problemas do dia-a-dia, mas que milhares - talvez milhões e bilhões de pessoas - preferem a ausência de lógica formal para planejar o futuro, ah! isso preferem. Infelizmente!
E é esse o principal problema do mundo. Decisões tomadas sem base de conhecimento ou lastreadas em nada conduzem a precipícios, solavancos, decepções. M. feita não há detergente, boa fé ou desculpa capaz de acabar com o mau cheiro. A lição que resta, de 2008, pelo menos para mim, é essa: sem planejamento tudo vira necessidade fisiológica. Você sabe, não sabe? Cólica é cólica, não dá para segurar. Então, para o Ano Novo, faço desta decisão a primeira das dentre as que pretendo perseguir: nada de pensar com o intestino. A gente precisa analisar cada detalhe do que como fazer, antes de fazer só porque é determinante. E, uma vez tomada a decisão, partir com tudo, ser objetivo, rápido e até contundente.
Desenvolvi, durante 2008, cá no GCN, atividades de anfitrionismo (para quem não sabe Anfitrionismo é uma ciência atrelada a outras duas – Protocolo e Cerimonial – infelizmente desconhecidas pela maioria das pessoas, empresas, organizações, corporações, entidades) e que causa, se não utilizada devidamente, terremotos, maremotos e furacões capazes de minar a competência tecnológica e a expertise negocial (uma telefonista mal preparada, a exemplo). Posso dizer sem medo de errar que o homem de nosso tempo anda ansioso, preocupado, cabeça na lua, dizendo “a” enquanto pensa em “z”. Está o homem do nosso tempo desenvolvendo uma síndrome nova: estar, sem estar de verdade. O pior é que pensa que isso o faz diferente para melhor!
Tento trocar em miúdos: há razão para um empresário negar que somos hoje uma (pequeniníssima) “aldeia global”, como profetizou – acertadamente! – Marshall McLuhan, em 1964? Que podemos ter aqui em Franca um vendaval forte se todo o 1,6 bilhão de chineses resolver assoprar “virados para cá e ao mesmo tempo”, como sempre brinca o consultor Zdenek Pracuch? Que fechamos negócios com alguém no Japão ou qualquer outra parte do mundo via Voip (Voice over IP, voz sobre endereço de um determinado computador), sem pagar nada de telefonia convencional? Então. Qualquer um está ao alcance de um toque mas ainda há gente que não acredita, fecha os olhos, não quer enxergar que uma dor de barriga nos compradores internacionais de nossos calçados faz com que a gente corra para o sanitário mais próximo.
Fiz uma súmula de pensamentos de empresários, industriais, consultores, operários e leitores que publicamos neste Comércio durante 2008 e o resultado é representativo: gente que estuda e analisa o dia-a-dia da indústria desta terra, que usa a lógica para deduzir problemas antes que ocorram, é catastrofista!
Não vou esticar o assunto. Os próximos meses falarão mais que palavras escritas ou gritadas. Vem aí uma nova ordem financeira mundial. Para ser vitorioso nela terá que acontecer um novo tipo de empresário, antenado, lógico, de mente aberta, capaz de compreender que processos de aprendizado e de adaptação terão que ser praticados sempre como sugere o socrático “só sei que nada sei”, hoje mais moderno que nunca.
Penso que nesta nova sociedade não haverá lugar para quem usa tapolhos, para quem define o próprio rumo sem se lembrar de sua cintura dura, imprópria para desvios necessários. Irão longe apenas aqueles que encontrarem a dose certa de talento e competência e melhorarem a receita com doses iguais de razão e emoção. E, antes que seja tarde, desejo que o ano novo seja feliz para todos, mesmo com lucros menores, finalmente justos!
ALGUMAS FRASES
“Dá vontade de morrer. Vontade de chorar”, Saulo Pucci, presidente do Conselho de Administração da Amazonas, sobre 380 demissões realizadas pela empresa em 19 de dezembro de 2008; “Vamos ver quantas fábricas vão reabrir, de fato, depois das férias”, Zdenek Pracuch, preocupado com o cancelamento de pedidos em 20 de dezembro; “creio que o senhor está equivocado mais uma vez. A crise sobrevoa nosso País, sim, mas o setor calçadista de Franca está há anos trabalhando arduamente e com criatividade” Alan Carlos Grespi Marcondes, leitor, por e-mail ao Comércio em 6 de dezembro, sobre declarações de Zdenek Pracuch; “Esse pessoal não entende que uma fábrica é feita de milímetros, gramas e segundos e não de desperdício”, Pracuch, em 4 de dezembro durante em palestra no GCN, na presença de jornalistas, industriais e autoridades do setor coureiro-calçadista; “Muita empresa já fechou e o dono não sabe”, Idem; “O que Franca tem a ver com o Citybank, que está quebrando? A crise é um problema deles”, Arsênio de Freitas, diretor da Fenafic e FCA.
E OUTRAS
“Nós vamos chegar à condição da Itália de hoje, ou seja, vamos ter fábricas de marca própria, com um produto acima de qualquer suspeita, que vão vender calçados caros, quase que artesanais. Em pequenas quantidades, mas que de longe vão sobrepujar em lucratividade as grandes quantidades que estão vendendo hoje”, Pracuch, ao ser perguntado sobre o futuro da indústria calçadista, em Entrevista de Domingo, 23 de novembro; “As demissões não associam à crise atual. Ela (a crise) ainda não refletiu aqui (...). Na verdade é uma estratégia de trabalho”, Paulo Nunes, diretor da Mariner após despedir 150 funcionários em 19 de novembro; “Oportunista, desconfiado, nada politizado, despreparado para a gestão e acomodado são apenas alguns dos adjetivos”, Hélio Braga Filho, coordenador do Ipes (Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais), vinculado ao Uni-Facef (Centro Universitário de Franca) traçando um perfil do empresariado de calçados em Franca, 2 de dezembro de 2007; “O empresário pensa apenas em si. Não consegue perceber que ele se enfraquece à medida que a indústria se enfraquece”, Idem, em 2 de dezembro de 2007.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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