Convivência com a crise


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O primeiro indício de que as coisas não andam como deviam foi indicado na entrevista do grande financista húngaro residente na Inglaterra, George Soros, quando alertou que os ganhos em bolsas e com a especulação sobre petróleo eram constituídos de dinheiro virtual e que as fortunas eram só de papel. Pode ser que ninguém em Franca leu, porque as bancas locais de jornais não costumam ter esta espécie de revista. Mas, ninguém em sã consciência pode alegar a ignorância sobre o assunto, porque no dia 23 de julho, na coluna do Higino Caleiro Júnior neste Comércio foi publicada uma extensa nota a qual me permito transcrever na íntegra para ‘perpetuam rei memoriam’ como costumam dizer os causídicos sobre fatos que não podem ser esquecidos: ‘Os problemas econômicos dos Estados Unidos estão apenas começando e atingirão também outros mercados, avalia o diretor do departamento do risco da Economist Intelligence Unit, John Bowler. ‘Estou muito pessimista’. Para ele o fim do boom do crédito nos EUA é só parte das dificuldades que a economia mundial atravessará: ‘Bolhas vão explodir em outros mercados, como os emergentes’ (o Brasil é um dos emergentes). Será apenas ‘uma questão de tempo’ para que o preço das matérias-primas comece a ceder, como resposta à retração do consumo. Para as economias desenvolvidas, Bowler traça um cenário tenebroso. Além dos problemas no setor financeiro, os EUA vão se deparar com a insolvência de empresas e inadimplência entre os consumidores. A maior economia do mundo já está flertando com a recessão. Este quadro deve se espalhar para Europa e o Japão. ‘Há um longo caminho a ser percorrido, e a crise pode ser muito séria’, disse. A economia global está em ‘situação difícil’. Alerta-se para ‘desaceleração significativa’ no 2º semestre antes de uma recuperação gradual em 2009. A economia global enfrenta sua ‘posição mais difícil em muitos anos’. As condições financeiras são muito frágeis, e a inflação é uma preocupação crescente! Bom dia!’. A nota termina aí. Pois é senhores. O Comércio, na coluna de Higininho, publicou de fato uma profecia!! Mas, o que aconteceu? Nada. Absolutamente nada. A vida em Franca seguiu seu ritmo normal, ninguém se preocupou, ninguém mudou de hábitos, ninguém procurou saber como se defender e os poucos que alertavam foram taxados de catastrofistas, de aves agourentas. E alguns ganharam nota zero na avaliação das suas opiniões. Mas o que se podia fazer?, perguntou-me um empresário cuja fábrica entrou em ‘férias’ com 2 semanas de antecedência. Podia fazer muita coisa. Do lado externo da fábrica devia encurtar os prazos de venda; fazer compras do estritamente necessário para evitar nível crítico; diminuir estoques de matéria-prima (couro já está baixando); repensar os investimentos (até a troca do carro por um do ano); diminuir a dependência dos bancos, reformular o sistema de vendas datado do século passado; aprender a fazer custo e formular preço de venda de acordo com os métodos do terceiro milênio e, principalmente, começar olhar e analisar o que acontece para lá de Batatais, no resto do mundo. Do lado de dentro da fábrica há muito mais para ser feito, com a vantagem de que tudo depende só da gente. Evitar desperdícios, principalmente de matéria-prima causada pela má concepção dos modelos; pela falta de treinamento dos cortadores; pelo desconhecimento de como calcular o consumo; evitar operações supérfluas como a insanidade de colagem no pesponto; estudar a logística interna, onde a mercadoria é carregada de um lado para outro, lembrando gata mudando com os gatinhos, sem com isso acrescentar um milésimo de real de valor ao produto; instituir um sistema de inspeção de qualidade, para que as devoluções (que não constam no cálculo do preço de venda!) não fiquem com boa parte do lucro. Gente! A lista não acaba de tanto que é necessário fazer para ter uma fábrica enxuta e produtiva. Só falta dizer que Nova Serrana, que começou fabricar calçados por assim dizer, ontem, onde os francanos posaram de instrutores e professores de salto alto (sem falar nos gaúchos), hoje tem fábricas que produzem calçados a partir das peças cortadas em uma hora e dez minutos, embalados na caixa coletiva para despacho e, a partir de janeiro, baixará este tempo para cinqüenta minutos. Estamos em crise? Sim. Não adianta o nosso líder iluminado falar de ‘marolinhas’ e mandar o Bush ficar com o problema. Afinal ele não pode ser culpado porque só diz o que os que o assistem sopram para ele. Mas, a esta altura do campeonato aconselhar o povo, que já está endividado até não poder mais, a gastar mais e ir às compras para garantir os empregos é uma ironia, não faz sentido. A única garantia de emprego é entrar para o PT e ser nomeado para algum ministério novo. Faltam muitos! Só temos trinta e oito! Foi perdido tempo demais. As fábricas não se atualizaram, usam métodos obsoletos de produção, desperdiçam demais, não vendem - são compradas, enfim as providências que deviam ser tomadas na calmaria de tempos bons (quem é que vai se preocupar!) foram deixadas de lado e para depois. Haverá casos onde o remédio, se for aplicado, será tarde demais. AMAZONAS Esta nota fica apenas para relembrar os que não tiveram a chance de acompanhar as principais notícias dos últimos dias: a Amazonas distribuiu nota à imprensa em que comunica a decisão de demitir 300 de seus funcionários - de todos os setores e escalões. Segundo a assessoria de imprensa do grupo a atitude é uma ‘medida preventiva frente às turbulências e incertezas’ do cenário nacional e internacional. Vale afirmar que esta infeliz notícia reflete parte do que vem sendo comentado por este colunista - tido sempre como catastrofista e pessimista por alguns críticos de improviso - sobre o atual e delicado momento por que passa a economia mundial. Talvez agora o setor preste mais atenção na água que está subindo perigosamente para perto do pescoço.

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