Como em qualquer esporte sobre quatro rodas, a rivalidade no rali existe, mas predomina um forte espírito de convivência entre os participantes. É muito comum ver pai e filho, mãe e filha, marido e mulher e amigos formando parcerias como piloto e navegador.
Um exemplo é a dupla integrada pela professora Fabiana Serafim, 35 (piloto) e a gerente financeira Giane Mendonça, 33 (navegadora).
Elas competiram juntas pela primeira vez, e muito bem, pela categoria Wyllis. A tradicional modalidade, da qual participaram 15 competidores, foi a mais animada dentre as quatro existentes, apesar da média de velocidade ser mais reduzida - em torno de 33 km/hora - e das limitações técnicas em comparação às “máquinas” das categorias Turismo, Graduados e Master, em que predominam modelos Troller e Pajero Full, cujos preços variam de R$ 40 mil a R$ 60 mil.
As duas amigas adoram o que fazem e já participaram de vários passeios. “Gosto de tudo: a confraternização, os lugares, as paisagens, os atrasos, a tensão da prova. Mas se chover fica mais legal ainda”, relatou Giane, que compete há oito anos e complementa que sempre surge uma discussão dentro do carro “porque o navegador fica tenso e o piloto quer que seja passado o caminho certo”.
Habituada a essa dinâmica, Fabiana, que ficou em segundo lugar na pontuação geral de sua categoria, não abre mão dos tradicionais encontros de jipeiros. “É um momento de confraternização através do esporte. Somos uma grande família”, disse, acrescentando que sempre aparece alguém para ajudar nas situações mais complicadas.
Amigos, o comerciante Carlos César da Silva, 48, e o autônomo José Carlos Rosa, 49, correram com um Wyllis com motor de Opala, a álcool, 6 cilindros. Carlos, que assumiu o volante, é o mais experiente. Está nessa vida há pelo menos cinco anos. “Já fiz umas 15 largadas”, disse, ao lado do companheiro que estreava como navegador e parecia calmo. O piloto explica que para ser bom é preciso treino e atenção. “É necessário andar no cronômetro e na velocidade ideal. O Wyllis tem menos estabilidade, é uma categoria especial. Dá pra você fazer qualquer tipo de adaptação mecânica nele, desde que depois não ultrapasse os 80 quilômetros por hora”.
Após aguardar a saída completa dos Masters, às 13h55, a reportagem foi a bordo, na função de “zequinha” (aquele que não faz nada, só ajuda a desatolar o carro em momentos difíceis), da Pajero Full pilotada por Célio Rolzão e sua filha Thatiane Francine Rolzão, 16, fazendo a navegação. Célio, dono de um posto de combustíveis, participa da modalidade desde a criação do Jipe Clube de Franca, em 1998.
O percurso foi emocionante, com trepidações, lombadas de terra, buracos, pontes, arbustos e desvios repentinos que impediam qualquer tentativa do repórter em escrever no bloco de anotações. Quando entramos no balaio ou laço - em que os competidores começam a dar várias voltas na mesma área, a coisa ficou agitada e serviu de teste de resistência para o motor e a suspensão do carro, que funcionava sempre na tração 4 x 4.
Houve quatro erros que custaram um atraso de pelo menos quatro minutos para a equipe dentro do canavial. Chegamos a adentrar uma mata sem saída cheia de galhos secos, o que fez com que pedaços de madeira se enroscassem no cárter e batessem forte no carro. Por sorte, o veículo - que é considerado um dos melhores para esse tipo de corrida, já que possui entreeixo mais curto, boa altura e motor potente de 130 cavalos - tinha um quebra-mato, um reforço de ferro na frente. Sem contar que o motorista, ao menos aquela hora, não dava tanta importância para os muitos riscos na carroceria.
Após cumprirem os primeiros 80 quilômetros de muita adrenalina e sobressaltos, uma pausa em Buriti. Refrigerante, água, salgado e sombra para acalmar os ânimos de todos, já que os quilômetros finais reservavam mais belezas do que surpresas, conforme explica o criador do roteiro, Denir Eduardo Serafim. “Geralmente crio a rota com lugares já mapeados. A gente define o caminho por nível de dificuldade e por estilo de prova. Eu queria apertar o pessoal mais no começo e depois da parada deixá-los curtir a paisagem”.
Após três horas e meia de circuito, os jipeiros finalmente chegaram ao destino final. Mas como não se tratava de uma corrida de velocidade, quem aparecia primeiro não necessariamente ganhava. Somente após as 20 horas todos ficaram sabendo quem tinham sido os melhores pontuados de acordo com o rastro - aparelho que refaz eletronicamente o percurso de cada carro. Mas isso não tinha importância, pois a festa só estava começando.
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