Os jornalistas são animais-inquietos movidos por fatos e acontecimentos que desencadeiam o processo de informação que será levado ao conhecimento do grande público por meio dos veículos de comunicação. Mas o que às vezes ignoramos ou deixamos de perceber é que por trás do trabalho jornalístico está um ser humano dotado de sentimento e emoções.
Desde tenra idade aprendi a admirar e respeitar aqueles que fizeram a escolha de se tornarem jornalistas. Imagino a profissão como para poucos; um quase sacerdócio que envolve sacrifícios e que exige muita dedicação, coragem e elevado espírito resoluto aos que labutam motivados por tal vocação.
Nesta semana, no Iraque, pude conhecer pelo noticiário alguém que pensava nunca existir: seu nome é Muntazer Al Zaidi, jornalista. Homem que teve a coragem de destoar e ficar sisudo quando a maioria do auditório numa coletiva de imprensa sorria e não conseguia disfarçar o excitante contentamento em poder ver e ouvir pessoa tão ilustre como George Walker Bush Jr., “simplesmente” o homem mais poderoso do mundo (pelo menos por mais alguns dias, claro).
Como diria Sigmund Freud, “só o conhecimento traz o poder”. Podemos então, a partir da sentença freudiana, especular sobre duas hipóteses mais prováveis pelo ato de bravura demonstrado por Zaidi ao arremessar seus dois sapatos contra o cansado e “inofensivo” George.
A primeira gira em torno da linha de discurso de que Bush estava se valendo naquele momento. O que teria dito o presidente dos EUA para despertar tamanha indignação no jornalista iraquiano? Teria ele feito alguma provocação gratuita, típica de cowboy texano que se despede do poder passando pelo Iraque e humilhando o povo conquistado?
A outra teoria se dá no sentido de Bush ter reunido a imprensa para continuar iludindo o povo iraquiano sobre o bom trabalho que fizeram naquele lugar até aquele momento e, de repente, ter dito que seu sucessor talvez pudesse estender um “pouquinho” mais a “frutífera” ocupação...
Especulações à parte, o fato é que Zaidi não ignora o estado emocional e econômico de seu povo, é testemunha viva do sofrimento gerado por ocupações militares. Voltando a Freud: quando se reúnem conhecimentos esclarecedores, o senso crítico se aguça e pode transformar homens como Muntazer Al Zaidi em instrumentos poderosos de contestação, capazes de explodir de indignação.
Fazer voar os sapatos contra Bush pode ter sido grave insulto; no entanto, repercutiu e foi muito comemorado no mundo árabe. Quase todos se realizaram pelas mãos e sapatos de Zaidi, homem de coragem, jornalista impetuoso e de boa mira.
Quanto a Bush, seus reflexos ainda estão bons. Safou-se pela esquiva. Porém, algo ainda muito me preocupa: será que o ianque vai querer saber onde foram fabricados os sapatos que se tornaram armas e tentaram lhe atingir? Vai que manda investigar se são chineses, italianos ou brasileiros... Ai, ai, ai... Com a palavra o mestre Pracuch!
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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