A indústria de calçados passa periodicamente por fases distintas que afetam o pensamento dos fabricantes em geral. Já tivemos a fase de ‘durabilidade’ caracterizada pelo inesquecível 247 da Vulcabrás, que calçou legiões.
Depois tivemos a fase de ‘quanto mais barato, melhor’ que chegou a baratear os calçados ao ponto de imitar o tal produto cujo slogan era ‘use uma vez e jogue fora’, lembram? A mais recente foi a onda do ‘sapatênis’, que é melhor esquecer rapidinho. E, agora, estamos vivendo a fase de ‘conforto’. Não é nada demais. O conforto é necessário e de acordo com levantamento feito há dois anos pela revista Tecnicouro, na hora da decisão da compra, 46 % dos compradores masculinos, em primeiro lugar, olham o conforto. Pelo visto, as mulheres que não se importavam tanto, agora também estão procurando o conforto numa escala maior do que antes. Provavelmente, em função de maior atividade profissional, que exige das mulheres um calçado compatível com as funções que exercem durante maior parte do dia.
Estamos de acordo. Conforto é necessário, é importante para a saúde dos pés mas, por favor, vamos manter as aparências e não vamos partir para exageros. A edição on-line do jornal Exclusivo em 16 de novembro trouxe declarações da diretora de marketing (por sinal filha do fundador e dono) de uma importante produtora de calçados femininos gaúcha que, no mínimo, podemos considerar um pouco acima do razoável.
A senhora em questão, após justificar a decisão de investir cada vez mais na linha do conforto afirmou que o diferencial entre o calçado deles e dos outros é que: ‘possui uma manta de biofibra localizada debaixo da palmilha interna (sic - será que existe também palmilha externa?) que, com o calor do corpo emite ondas eletromagnéticas (mais uma conquista na produção de energia não poluente no Brasil!), que auxiliam na eliminação de toxinas, melhoram a circulação sanguínea, aliviam dores musculares e previnem varizes’.
Parabéns sinceros. Quem iria suspeitar que uma simples manta de biofibra debaixo da palmilha resolve problemas que a medicina luta há tanto tempo para resolver. Só faltou eliminar unha encravada, senilidade precoce na terceira idade e melhorar a memória. Aí a manta seria perfeita!
Mas, brincadeiras à parte, não esqueçamos que o Brasil já possui o Selo Conforto! Parafraseando o nosso Grande Guia podemos dizer que ‘nunca antes neste mundo’ alguém teve coragem de atestar o conforto de um modelo de calçados, quando sabemos que somente 65% dos compradores se enquadram aproximadamente(!) dentro do que poderíamos, com muita boa vontade, chamar de ‘um pé normal’.
Seria até interessante assistir a um diálogo entre cliente que afirma que o calçado está apertado e o balconista retrucar para deixar de ser implicante, se o calçado tem selo do ‘atestado do confortável’!
Como já disse, 65% da população têm os pés que, com alguma tolerância, podem ser considerados normais, 32% fariam melhor usando calçados ortopédicos e 3% têm que usar calçados especiais devido às deformações que não permitem calçar calçados feitos industrialmente. O cuidado especial deve ser dedicado à confecção das formas. A vaidade dos fabricantes em ter uma forma ‘diferente’ ou ‘exclusiva’ quase sempre está em desacordo com o que ortopedistas e tabelas dos formeiros recomendam. Também o velho costume de testar o calçado por alguém da fábrica, que dizem que tem pé padrão não leva ao resultado desejado. Pouquíssimas pessoas têm pé padrão. O que procuramos é uma forma que vai oferecer o conforto ao maior número possível de compradores e este teste não nos dá esta segurança.
O mesmo cuidado deve ser prestado na escolha de materiais. De nada serve apregoar o forro de couro legítimo se o acabamento deste couro for feito com poliuretano e, com isso, o couro virou um sintético igual ao forro de PVC de pior qualidade. Quando durante os dias de calor temos a impressão de ter um forno aquecendo os nossos pés, embora tenhamos calçados com forro de couro, que nos foi vendido orgulhosamente como um artigo de qualidade superior, verificamos que alguma coisa não funcionou.
O conforto é necessário. Mas ele é resultado de um sério trabalho profissional em todos os níveis da produção de calçados. Quem quer tratar o conforto como produto de marketing, ou seja, na conversa, pagará com o preço do desprestígio do nome da marca.
CALÇADO QUE EMAGRECE
A mais nova tendência de acrescentar valor para a saúde usando um determinado tipo de calçados é usar pesos adicionais na palmilha ou na sola, para exigir maior esforço no ato de andar. Pelo atestado da FDA (Agência Federal para Saúde dos Estados Unidos) de nº de registro 3004512354 o calçado em questão queima até 300 calorias durante uma caminhada rápida de 30 minutos. A Power Diet Shoes afirma em sua publicidade que os calçados deles, com duas palmilhas intercambiáveis ‘ajudam a controlar o peso e reduzem em 50% o risco de se tornar obeso. Carregar uma mochila nas costas, ou algum peso na mão, deve ser suficiente para se conseguir o mesmo resultado. Os ortopedistas e podólogos alertam para a escolha do peso certo da palmilha intercambiavel, que varia de meio a até um quilo e meio. Há restrição para crianças e pessoas de idade ou mulheres grávidas, pessoas com problemas de pressão e de juntas.
LI NING
As Olimpíadas tiveram grande influência sobre a fabricação do calçado esportivo chinês, embora a Nike e Adidas tenham levado todos os louros, dessa vez. Além da projeção internacional o reflexo no mercado interno chinês foi intenso. A Nike tem hoje na China mais de 3 mil pontos de venda e Adidas quer atingir até o fim do ano 5,9 mil lojas chinesas. O calçado chinês foi representado pelo produto Li Ning, cujo fundador e proprietário foi atleta em Olimpíadas anteriores, o mesmo que acendeu a pira olímpica do ‘Ninho do Pássaro’. Senhor Abel Wu, porta-voz da Li Ning diz que a marca ainda não pode competir em nível global com Nike, Adidas ou Puma, mas que dentro de cinco anos será conhecida também pela sua qualidade, design distinto e apelo emocional, associado a preço bem mais acessível. Reconhece que a caminhada até lá será longa.
Zdenek Pracuch
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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