Cem crianças e adolescentes, com idades entre 8 e 16 anos, de ambos os sexos, trabalham nas ruas de Franca, o que é proibido por lei. O levantamento foi feito pela equipe do Creas (Centro de Referência Especializada de Assistência Social), mantido pela Prefeitura. Os menores trabalham vendendo balas e bombons, como engraxates e entregadores de panfletos, principalmente no Centro e Estação. A maioria mora em bairros das regiões Oeste e Norte, é de família numerosa, tem pais desempregados, é criado por mães solteiras ou pelas avós, estuda e trabalha para ajudar a sustentar os irmãos e comprar o que tem vontade.
É o caso de AR, 12, que está na 6ª série. A criança “ganhou as ruas” aos 7 anos. Copiando a idéia da irmã, passou a vigiar carros e pedir dinheiro em locais públicos. Mas sempre ouvia das pessoas abordadas que deveria trabalhar e é isso que faz até hoje. É vendedor de balas e engraxate. “Eu gosto de trabalhar. Minha mãe trabalhava, pagava força, água, comprava gás, tudo sozinha e aí não dava para comprar roupa para nós, aí a gente passou a vigiar carros e dava um dinheiro para comprar coisas para nós”, disse.
O garoto estuda à tarde. Todos os dias, segue com os amigos do seu bairro para o Centro e Estação, onde vende balas das 7 às 12 horas, nas lojas, nas ruas e em bares. No fim do ano, aproveita o horário especial do comércio e volta para o trabalho à noite para vender cartões de Natal até 22 horas. Apenas durante as férias, tem tempo para soltar pipa e outras brincadeiras.
AR ganha R$ 150 por mês. O valor é dividido. “Metade eu dou para minha mãe e metade eu pego para mim (sic) comprar roupas. O que eu dou para ela é usado para comprar mistura”, disse ele, que mora com a mãe e dois irmãos de 16 e 8 anos.
Nas ruas, AR já enfrentou apuros e sofreu ameaças. “Eu já corri risco. Já teve gente querendo tomar nosso dinheiro, mas a gente pegou uns pedaços de pau e não deixou eles pegarem”. Mesmo com as adversidades, ele pretende continuar trabalhando nas ruas. “Na hora que eu firmar os 15 anos, eu vou entregar panfletos”.
AM, 11, aluno da 3ª série, também começou a trabalhar cedo. Vende balas desde os 8 anos. Consegue R$ 50 por mês para ajudar em casa e comprar roupas. Ele continua trabalhando e, além dos doces, vende cartões de Natal. “Não é muito, muito bom trabalhar nesta idade não, mas eu preciso. Não vou deixar de trabalhar. Quando ficar mais velho, quero conseguir emprego numa fábrica de calçados”. Na casa dele, mora com a mãe, o padrasto e quatro irmãos de 19, 15, 13 e 10 anos. Além dele, o padrasto e a irmã de 15 anos estão trabalhando.
O ATENDIMENTO
O trabalho do Creas para encontrar crianças e jovens na mesma situação de AR e AM começou há pouco mais de um ano. Todos os dias, cinco educadores sociais saem pelas ruas em busca de menores trabalhando. Ao encontrá-los, abordam, levantam suas histórias e propõem atendimento no Creas. Os que aceitam freqüentam a entidade três vezes por semana para aulas de informática, vôlei, basquete, futebol, natação, artesanato, hip hop e break.
AR é acompanhado pelo Creas, onde faz aulas de break, natação e futebol. Ele gosta do projeto. “É bom porque tira a gente da rua, ajuda em casa e me permite freqüentar um tanto de esporte”, disse ele.
A equipe, composta por educadores, assistentes sociais e psicólogas, presta atendimentos individuais aos menores e a suas famílias. O objetivo é retirá-los do trabalho, mas a longo prazo. “Num primeiro momento, não há como interromper o trabalho. A família precisa do recurso”, disse a assistente social Maria Inês Coimbra, coordenadora do Creas. “Não interrompemos o trabalho, mas reduzimos a jornada deles nas ruas, pois passam parte dos dias da semana nas atividades do Creas”, disse Lisiane Amorim, educadora social da entidade.
A Prefeitura trabalha para inserir os pais em cursos de geração de renda e encaminhar as famílias para receber benefícios do governo, como o Bolsa Família. Como os programas exigem que as crianças estejam estudando, o Creas incentiva o retorno à escola. Dos cem acompanhados, 25 estão sem estudar. “A sociedade acha lindo ver menores trabalhando e não roubando. Mas nas ruas correm risco de serem aliciados, atropelados e estão expostos a drogas e prostituição”, disse Maria Inês.
Fabiana Diniz, diretora da Divisão da Criança e do Adolescente da Secretaria de Ação Social, admite que o trabalho infantil existe na cidade, mas também entende que a mudança do cenário é um processo. “O Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) atende hoje 107 pessoas em Franca, mas sabemos que a demanda é maior. Muitos não são atendidos por não cumprirem os critérios do programa. Por isso o Creas participa com o trabalho de busca ativa nas ruas, mas é um processo”, disse (leia mais sobre o Peti no apoio).
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