Por que a falsa e não a verdadeira, poderá se perguntar o leitor eventual. Responderei que as pessoas estão simplificando a existência, não têm mais tanto tempo para as artes culinárias, preferem receitas que possam ser viabilizadas de forma rápida. Mas não dispensam a beleza, pelo menos nestes dias especiais com os quais pretendemos preencher, tantas vezes, o vazio do final de ano, com seus apelos consumistas, incoerentes, absurdos, incompreensíveis por distantes demais do espírito que norteou o primeiríssimo Natal.
Resgato no arquivo “dezembro” uma sobremesa que até na Itália ganhou ares modernos, com substituição de ingredientes. Uma amiga que esteve há pouco tempo em Cefalù me conta que se sentou numa confeitaria daquelas charmosas, com mesas nas calçadas (por lá pode...) e pediu a famosérrima “cassata siciliana”. Estava finalmente ali, haurindo os ares da sicilianità, águas mediterrâneas aos pés, ainda na memória ruína de teatro de tempos imemoriais. Um sonho de turista que enfim chega ao lugar perseguido durante anos.
Acreditou que pudesse experimentar uma especialidade que deveria ter sido saboreada desde séculos por aquele povo, herdeiro de uma cultura rica porque milenar e mesclada por influências das mais diferentes etnias. Enfim, contou-me, lá veio o garçom com a clássica pergunta- “Cosa desidera?” e ela sacou sua cassata.
Imaginou um bolo com o qual sua nona a havia surpreendido na infância: uma torta úmida, mais lembrança de pavê que de bolo, recheada com ricota e frutas cristalizadas, um perfume de amêndoas e meninice. O mito da mamma experiente na cozinha ainda povoa o imaginário latino, mesmo que estejamos separados por um oceano de diferenças climáticas, sazonais, culturais... Daí aquele desejo de reproduzir o prazer de outrora. Só que a cassata que lhe foi oferecida num prato bonito com desenhos etruscos pareceu-lhe mais um sorvete que ela olhou espantada. Se até na Sicília não fazem mais a tradicional cassata, por que insistir nela?
E a bem da verdade, contou-me a amiga que gostou do que comeu, a “falsa cassata”, como a chamou. E fiando-se na memória, até a reproduziu depois, de volta ao Brasil. É esta a receita de hoje, sugestão prática para uma sobremesa de Natal. Contém as típicas frutas secas e as cristalizadas. Sobre as secas, um aviso. Não as pique apenas: moa bem, porque se não fizer isso, inviabiliza o doce. Os pedacinhos, por menores que sejam, viram pedrinhas quando congelados. O resto é muito fácil. Confira.
Ponha as frutas cristalizadas numa vasilha com licor - pode ser marasquino, cereja, laranja, o que você preferir. Deixe de molho por duas horas.
Unte uma fôrma grande e redonda com óleo de amêndoas. Coloque a primeira camada que deve ser de sorvete de creme. Espalhe, alise com colher molhada, leve ao congelador até endurecer bem. Passe as frutas pelo coador. Descarte o licor. Bata o creme de leite até tomar forma de chantilly e reserve.
Bata a clara em ponto de neve, junte as raspas de limão, o açúcar de confeiteiro. Misture delicadamente a clara em neve ao chantilly, junte as frutas cristalizadas. Coloque a mistura sobre a camada de sorvete e leve de volta ao freezer. Moa as nozes e amêndoas e misture-as ao sorvete de chocolate. Espalhe o sorvete de chocolate sobre a camada bem firme de chantilly. Deixe no congelador por um mínimo de seis horas.
Na hora de servir, tire a forma do freezer e vire sobre um prato bonito. Use um pano molhado em água quente para despregar o sorvete da fôrma. A cassata não deve ser servida como um bloco de gelo. Mas também não pode derreter. Assim, espere uns cinco minutos antes de levar à mesa. Faz bastante diferença e encontrar este ponto é importante. Se houver algum contratempo entre desenformar e servir, deixe na geladeira até o momento exato.
Enfeite com calda vermelha, cerejas, farofa de nozes, raspas de limão, chocolate ralado... Vale o que estiver mais à mão. O resto é com a imaginação.
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