Fusca: uma (turbinada) paixão francana


| Tempo de leitura: 5 min
MOMENTO ESPECIAL - Antônio Carlos Zaninelo tem um Fusca 1969, vermelho cereja. Ele comprou o veículo há três anos porque foi o mesmo em que viajou na sua lua-de-mel
MOMENTO ESPECIAL - Antônio Carlos Zaninelo tem um Fusca 1969, vermelho cereja. Ele comprou o veículo há três anos porque foi o mesmo em que viajou na sua lua-de-mel
Tem gente que diz nunca ter andado de Fusca e nem tem interesse. De fato, o célebre e inaugural carro da Volkswagen, em alemão chamado de Käfer, não é dos mais velozes e espaçosos. Ainda mais com os encantos da indústria automobilística que sempre se reinventa e oferece modelos mais modernos e confortáveis. Mas é inegável que há algo de especial no veículo projetado por Ferdinand Porsche - o mesmo que criou o Porsche 356 - e fabricado em larga escala a partir dos anos 1940 na Alemanha. Não é à toa que a Disney produziu cinco filmes com o famoso Herbie, o carro que tinha personalidade e vontade própria. Quem não se lembra de Se Meu Fusca Falasse (1969) e Meu Fusca Turbinado (2005)? Ou então da música - que depois virou filme no Brasil - Fuscão Preto, composta por Artilio Versuti e Jeca Mineiro? (“Fuscão preto, você é feito de aço...”) Essa paixão, motivada principalmente por um sentimento de nostalgia e identificação pessoal, é detectada em muitos francanos. Entre eles, até personalidades conhecidas da cidade, como Clovis Ludovice, reitor da Universidade de Franca, não abre mão de manter pelo menos dois Fuscas, entre eles o modelo 1994/1995 cinza, chamado popularmente de Itamar, já que é da época em que o então presidente Itamar Franco retomou a produção do automóvel no Brasil. A reportagem conversou com alguns desses adeptos de um movimento à parte no automobilismo. Cada um tem sua história e relação especial com o xodó da Volks, porém uma coisa é unânime: ninguém intenta vender o seu, a não ser que por uma bagatela que compense a “inestimável” perda. O diretor da Francauto é um desses casos. Antônio Carlos Zaninelo, 60, comprou um Fusca faz três anos. O modelo escolhido por ele é um sedan 1969, na cor vermelho cereja. A justificativa para a aquisição tem a ver com o seu casamento. “Gosto do Fusca porque, em 1975, viajei em lua-de-mel com minha esposa para Poços de Caldas (MG) com um carro igualzinho a esse”, conta. O automóvel com placa preta de colecionador conserva até o som original, o Riberson, que só capta sinais de rádio AM “e olhe lá”. Com exceção da pintura, que teve de ser restaurada - valor que está na casa dos milhares de reais -, tudo é original de fábrica, inclusive o motor com mais de 70 mil quilômetros rodados. Tanto apreço pede cautela e uso nas horas certas. “Só saio com o carro aos finais de semana, para dar uma volta com a esposa e participar de encontros de carros antigos”, afirma. Outro aficionado por Fusca é o comerciante Ronilson Raimundo, 49. Ele gastou não menos que R$ 35 mil para “tunar” o veículo. Ele explica que adquiriu um exemplar do modelo 1970 há quatro anos e desde então vem transformando-o, para ficar com a cara do modelo lançado em 1950. Por dentro, chama atenção o painel de madeira com medidor de combustível, óleo e temperatura, além do DVD player e dos vidros elétricos. Os bancos são de couro e o câmbio é de engate rápido. O motor 2.2 é novo, com pouco mais de 400 quilômetros rodados e o sistema tem freio a disco nas quatro rodas. Por fora, mais surpresas. A pintura verde impecável, o vidro traseiro bipartido e os vidros “bolha” conferem-lhe elegância. “O meu carro tem carroceria original e mecânica moderna”, explica. Gil Biasoli, 53, vice-presidente do CAAF (Clube do Automóvel Antigo de Franca), também é um maníaco por Fusca. Tanto que comprou um em São Sebastião do Paraíso (MG) faz dois anos. Ele só não revela quanto gastou com o VW 1957 azul pastel “por medo da esposa ficar brava” (acredita-se que mais de R$ 20 mil...). Assim como os outros fuscamaníacos, só roda com ele aos fins de semana pelos encontros de antigomobilismo espalhados pelo País. “Acho o Fusca um carro carismático e de fácil manutenção, que não te deixa na mão na estrada”, comenta. Se o carro de Ronilson chama atenção por reunir tantos itens, o veículo do aposentado francano Humberto Lanza, 63, impressiona pela originalidade. O Fusca que hoje é dele pertenceu a seu pai e foi adquirido em maio de 1968. Com 112 mil quilômetros rodados de muita história para contar, o automóvel só teve a pintura refeita, trabalho que custou aproximadamente R$ 3 mil. “Forro, banco, retrovisor e motor: tudo é original, não mexi em nada. Só a pintura que não, porque ficou desgastada com o tempo”. ‘ARRUMADÍSSIMO’ “O Fusca está arrumadíssimo”, explica Luiz Carlos Ferreira, 61. O bancário aposentado não participa de nenhum grupo ou evento de carros antigos, mas sustenta admiração pelo automóvel da Volks. O modelo que Luiz ostenta com orgulho em sua garagem - e que só sai para que o filho vá à faculdade - foi comprado em 1973. Tem revestimento de madeira nas portas e rodas aro 14 de Brasília. O motor é original, assim como o volante com o emblema clássico da Volks. “A loja em que comprei ficava em Pedregulho e nem existe mais. O Fusca era o xodó da época, todo mundo queria ter”, afirma. O aposentado diz que já teve muitas chances de vendê-lo por preços pelo menos quatro vezes maiores que o valor de mercado, avaliado em R$ 1,8 mil. O dono continua irredutível e ainda investe no carango, mesmo com os prejuízos de um recente capotamento. Só com troca de portas e forro gastou R$ 2 mil. “Comprei um outro Fusca para trocar as peças. Até hoje gastei uns R$ 8 mil”, disse Luiz, que se considera um maníaco por Fusca por ter feito o que fez para continuar sustentando seu hobby. “Gosto dele, porque fiz a vida com ele. Tudo o que tenho hoje ganhei graças ao Fusca”.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários