Mais lembranças


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Pediram-me e aqui está uma segunda parte – mas não a última - de um estimulante exercício de memória ao qual me remeti há algumas semanas e que caiu no gosto de muitos, que se manifestaram pessoalmente ou por mensagens. É interessante verificar como a recordação de cenas e cenários de outras épocas transfere alegria às pessoas. Seis da tarde. O som da cidade tinha chiados e nascia das ondas curtas de rádios Telefunken valvulados, Hitachis portáteis ou dos Transglobe que retransmitiam a benção de Padre Donizetti (de sobrenome Tavares de Lima, filho de conhecida família francana), direto da Rádio Aparecida, de Aparecida do Norte. Um pouco antes, bicicletas Calói e Monark transportaram, de todas as regiões da cidade, trabalhadores de indústrias de calçados (Calçados Terra, Samello, Agabê, Rui de Mello dentre elas) e produziram muitos pneus furados com tachinhas espalhadas por sapateiros que se divertiam com o xingamento dos bicicleteiros. Terminada a benção, era hora de sintonizar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, para as novelas “Jerônimo, o herói do sertão” (e, quem era fã mesmo sabia de cor a letra: “Quem passar pelo sertão / Vai ouvir alguém falar / Do herói desta canção / Que eu venho aqui cantar / Se é pro bem, vai encontrar / Um Jerônimo protetor / Se é pro mal, vai enfrentar / O Jerônimo lutador... / Filho de Maria-Homem nasceu / Serro Bravo foi seu berço natal / Entre tiros e tocaias cresceu / Hoje luta pelo bem, contra o mal / Galopando está em todo lugar / Pelos pobres a lutar sem temer / Com Moleque Saci pra ajudar / Ele faz qualquer valente tremer), seguida pelas “Aventuras do Anjo”. Terminada a audição, era hora de trocar impressões com os familiares, à mesa de jantar. Arroz e feijão (“coma menino, tem as vitaminas que você precisa), bife, salada, “algumas gotas de limão e uma chegadinha de sal” para realçar o gosto. Nas casas menos abastadas, “mexidinhos” e “várias gotas de limão e punhadinhos de sal” para “repetir”. Um “sinal da Cruz” e uma pequena oração, geralmente feita pelo pai, para agradecer o alimento. Por volta das 8 horas da noite, cadeiras à frente da casa para os mais velhos. Boas prosas com a vizinhança até “altas horas” (10 horas da noite porque “amanhã, se trabalha”) enquanto as crianças corriam pela rua, sem trânsito, iluminação garantida pelos postes pretos de ferro, da companhia de energia, onde marimbondos faziam caixas que se transformavam em alvo para os “canudinhos de papel” que as crianças assopravam em tubos metálicos, ou estilingues, que, no erro, acertavam as lâmpadas, vidraças de casas, a testa de algum amigo menos avisado. Bem debaixo do poste, jogo de bolinhas de gude; mais adiante, piões zunindo atirados de “banda”. Atrás da Escola “Torquato Caleiro”, em frente à bacia de bronze onde os cavalos das carroças matavam a sede de dia, o futebol da noite. Podia-se aparecer lá para assistir “as trombadas” dos filhos do Ibiraci (Carlinhos, Euripinho, Celsinho e dezenas de amigos, dentre os quais Zé Preto, Niaso, Zé Peres, Sapato, Delei, Oripinho, Manchinha, Juquinha, Alarcon, Marquinho) em disputa ao que houvesse para chutar, desde bola de cobertão e até laranjas e limões. Estes sucederam outros moradores da região, mais velhos, Valdes, Alemão, Nenê, Capeta, Grilo, os gêmeos da praça João Mendes. Mestre Tiqueta já se arvorava técnico, nesta época. Acabou montando a equipe do Laranjeiras, aos fundos da Escola “Caetano Petráglia”, na Cidade Nova. Em volta do canteiro central da Avenida Major Nicácio, entre as ruas Prudente de Morais e Álvaro Abranches, carrinhos de rolimã disputavam corridas no asfalto, regadas a tombos e escoriações. Está claro que em todas as regiões da cidade as atividades eram praticamente as mesmas. Cada leitor pode se dedicar, se quiser, a colocar no papel suas reminisciências, permitindo a que estas memórias não se percam. E enviá-las, se quiserem. Meu e-mail está aí em cima. Haverão outras colunas como esta. Meu interino, Alexandre Fischer, começa. Nas notas que se seguem, suas lembranças, um pouco mais “recentes”, mas recordar é o que vale. Fica a pergunta: Neste mundo moderno, onde tudo está ao alcance de um controle remoto, somos mais felizes? LEMBRANÇAS MAIS "RECENTES"... ... me vêem do Clube dos Bagres onde, aos domingos, disputas nos trampolins eram para mostrar coragem aos pais que sentavam-se na lanchonete por horas a fio curtindo uma "fresca" e uma gelada batendo sinuca entre si e pebolim com os filhos ainda ensopados nos intervalos da piscina. Almoço era pastel e o descanso era de uma hora fora d`água "para fazer o quilo" e não se afogar. ALGUM TEMPO DEPOIS... ... dávamos também uma passadinha no recém-cons-truído Vale dos Bagres para ver os empenhados en- xadristas moverem os enormes peões e torres; tentar achar o caminho atrás da cachoeira e paquerar as garotinhas que exibiam seus patins adornados com meias soquetes e seus cabelos ao estilo Olivia Newton-John. Recém inau-gurado, o Cine Bistol oferecia sessões ininterruptas: entrávamos na metade de um filme e assistíamos na seqüência o início na próxima sessão - algumas vezes no meio da madrugada - sem preocupações com assaltos ou riscos maiores... Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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