Bom mentiroso


| Tempo de leitura: 3 min
Conhecer de fato alguém que assuma ser mentiroso pode ser difícil, pois alguns disfarçam bem a ‘mania’ fingindo não serem enganadores; se divertindo e alimentando o passatempo predileto de abusar da ingenuidade alheia. Existem muitos desses espalhados por onde quer que vamos, alguns nocivos, outros nem tanto, como Jarjar (nome fictício), autor e idealizador de cada peripécia absurda que às vezes fica até difícil separar o que é ‘mentira’ daquilo que vai muito além da mentira e que pode acabar tornando verdade. Particularmente, ele não assume sua condição de mentiroso, prefere fazer entender que é apaixonado pela ‘ficção’ e vive criando situações das mais atípicas e inimagináveis. Seu maior medo é o de perder o trono conquistado com muita dedicação; e para que isso não ocorra, desdobra-se demonstrando peculiar e aguçada criatividade. Sustenta que nasceu prematuro de quatro meses numa cidadezinha do Sul de Minas. Aos dois anos de vida, já lia e escrevia, compunha sonetos e aprendia tocar viola; por ser ainda muito pequeno não podia ajudar seu pai na roça; mesmo assim, ajudava, às vezes, no aparte do gado; ressaltando que tinha pequena dificuldade em montar a cavalo por ter as pernas curtas e mãos pequenas e alegando que tal condição de ‘mirradinho’ não o prejudicava devido à ‘habilidade’ em montarias. A estória de Jarjar é interessante, podem ‘acreditar’. Em seus mergulhos no tempo conta que saiu de casa aos sete anos de idade, conheceu cada cantinho do Brasil e fez de tudo um pouco. Durante suas andanças cursou oito faculdades, mas não concluiu nenhuma delas por falta de afinidade com as áreas. Exceto a de medicina que teve de abandonar no quinto ano do curso por ter engravidado a moça que se tornaria sua esposa, a Rebeca, com quadrigêmeos. Sorte no amor e nas finanças também. Rebeca era filha única e seu pai um grande fazendeiro, porém moribundo. Não demorou muito tempo e Jarjar herdou os bens e assumiu os negócios. Sem muita experiência acabou perdendo tudo, inclusive, a Rebeca. Após as graves perdas a boemia tornou-se refúgio para sua pobre alma. Só mais tarde, reunindo forças, conseguiu abandonar a noite e seus devaneios em busca de velho sonho: o de ser ator. Segundo ele, participou de peças teatrais importantes até surgir o convite para televisão, sonho que não foi possível concretizar devido ao incêndio da emissora em 1969, que acabou suspendendo sua contratação. Deprimido e sem dinheiro migrou para o interior de São Paulo, cortou cana por alguns anos até se tornar usineiro (o que não explica direito como se deu). Resolveu mais tarde investir em gado; ganhou dinheiro, se aposentou e agora tem um bar. A cronologia e os sinais dos tempos elevam Jarjar à casa dos setenta anos, mas ele refuta veementemente e diz só ter quarenta e nove. Sua bebida é água tônica que fala ser vodca. Vive a espreita de um novato como eu que lá põe os pés, para contar estórias engraçadas, tristes e absurdas que ajudam a aliviar o estresse. Jarjar é um bom mentiroso, entretendo os que freqüentam seu bar neste mundo que vive momento tenebroso. Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários