Tempo é dinheiro


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Nos últimos dois meses, dei três cursos sobre produtividade no pesponto. Embora já acostumado, sempre fico admirado de como os encarregados dos pespontos ou chefes de produção têm pouca noção do desperdício do tempo dentro de suas fábricas ou departamentos. Na hora de negociar fretes com as transportadoras, os donos das fábricas são implacáveis e conseguem discutir centavos até cansar. Mas quando se trata de logística interna, de transportes dentro da fábrica, parece que foram atacados de cegueira. E quando a fábrica ainda se dá ao luxo de manter pespontos externos, as famosas bancas, aí falar em economias, ou melhor, em desperdícios, é tempo perdido (mais um desperdício!). Provei inúmeras vezes, com cronômetro na mão, que a má organização do pesponto é responsável por perdas de até 20% do tempo produtivo. Não é pouca coisa. É como se a pespontadeira trabalhasse intensamente durante quatro dias por semana e ficasse parada, no quinto dia, sem fazer nada. Alguém admitiria isso? Não? Mas isso acontece na grande maioria das fábricas! Observem o tempo de que a pespontadeira precisa para tirar da caixa os dez, 15 ou 20 (!) pares de cabedais a costurar, arrumá-los na mesa da máquina, alguns pés caem, ela os recolhe, para depois com toda calma iniciar o trabalho da costura. Terminado o trabalho, reacomodar os produtos acabados dentro da caixa leva quase o mesmo tempo. Aí, a máquina, que deveria produzir, fica parada. Isso quando não assistimos novamente ao clássico “O que vou fazer agora?”. Na década de 1930 esse problema foi resolvido com sucesso na Europa, utilizando transportadores. A pespontadeira não sai do lugar, o serviço é trazido para ela de par em par ao alcance da mão dela e o serviço flui sem interrupção. Quando recomendo instalar o transportador e organizar o serviço deste modo, ouço tantos argumentos contrários que, se não estivesse calejado, desistiria. “Nossa modelagem é muito variável” ou “teria que mudar o layout toda vez que mudasse o modelo” ou “não tenho máquinas suficientes para atender a todos os postos de trabalho que necessito” ou o “meu pessoal não tem a flexibilidade suficiente para atender a vários tipos de serviço”, são as desculpas mais apresentadas. Até hoje nenhum chefe do pesponto teve coragem para apresentar a única razão para não querer mudanças ou nem tentar: “Não sei como fazer e tenho medo das mudanças!”. Por isso as nossas fábricas são pouco produtivas e estão perdendo terreno em competitividade. Mas como esperar mudança da mentalidade dos subordinados quando os donos são os primeiros a apelar para as bancas, visando “verem-se livres de um abacaxi”? A logística interna, que é péssima e como logística nem sequer existe, com bancas lá de fora, fica incontrolável. Quanto custa o transporte de ida e volta? Quanto custa a conferência na ida e na volta? Quanto custa o atraso causado pelas fichas incompletas, perdidas e malfeitas? Quanto se perde em reposições, em peças que alegadamente faltam, porque ninguém quer confessar o estrago? Quanto custam os dez ou 20 planos, mapas ou relatórios, seja lá como se chamam, que ficam em giro? Giro, aliás, desnecessário, que gera outras despesas; e assim por diante. Quanto custa carregar mercadorias em produção de um lugar para outro dentro da produção, serviço este que é pago, mas não acrescenta um milésimo de real ao valor do calçado? Exemplo? Porque os cortadores vão buscar o serviço enquanto o encarregado do corte se ocupa com outras atividades e os balancins ficam parados? Basta observar a quantidade de pessoas andando, ou melhor, passeando durante o horário de trabalho para verificar como se desperdiça o tempo. Se os desperdícios que acabo de questionar fossem computados nos custos, o calçado se tornaria invendável, incapaz de concorrer. Já que ninguém conhece este custo, nem sabe como calcular, este desperdício é pago dos lucros e, como também pouca gente sabe calcular o resultado semanal, quinzenal ou mensal da empresa, fica o resultado a ser apurado no fim do ano de produção, que quase sempre acaba se dando lá pelo mês de março do ano seguinte... O melhor da história, porém, é que a despeito da resistência dos encarregados já temos hoje fábricas que conseguem produzir calçado em menos de duas horas, a partir das peças cortadas, com serviço passando de mão em mão sobre transportador. Por enquanto, nenhuma em Franca. Aqui temos fábricas que costuram com as esteiras e falta só um passo para produzir igual às fábricas de Nova Serrana e Itapecerica, em Minas Gerais. Não adianta esconder a cabeça igual avestruz, na areia. Esta indústria é feita também de segundos e quem se dá o luxo de desperdiçar até dia inteiro na semana, passará por dificuldades querendo competir. O tempo foi, é e sempre será dinheiro. A única diferença entre os dois é que dinheiro desperdiçado é possível recuperar, mas tempo perdido é irrecuperável. Perdido para sempre! TAMBÉM NOS CALÇADOS Pela declaração de autoridades financeiras dos Estados Unidos, ficamos sabendo que Bill Gates, dono da Microsoft, tem participação de 5,6% no capital da fábrica de sandálias populares Crocs. Esta participação representa 4,7 milhões de ações. (MAU) GANHO EXTRA Ainda a Crocs. O proprietário de uma fábrica de calçados em Petrer, na província de Alicante, Espanha, foi detido pela polícia local por usar o depósito de sua própria fábrica para distribuir, através do departamento de vendas, sandálias Crocs falsificadas. As autoridades policiais apreenderam quase 25 mil pares de sandálias importadas ilegalmente, aparentemente da China. TAMBÉM NA RÚSSIA E mais uma. Dick Vijsman, diretor-executivo da Crocs na Europa, comentou sobre a inauguração de subsidiária da indústria, em Moscou, Rússia: “Para nós, é um grande dia estar aqui, num dos mais importantes mercados do futuro. A expansão beneficiará os compradores russos e estou certo de que fará diferença neste mercado”. Zdenek Pracuch Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br MAIS Veja especial sobre a Crise Econômica no Blog GCN na Web - http://gcncomunica.wordpress.com Notícias sobre a Crise Econômica no Jornal da Noite de ontem, 8 - http://gcncomunica.wordpress.com/novidades/banco-de-audios/jornal-da-noite-arquivos/

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