Rabanadas assadas


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Faz-se oportuno falar de rabanadas, pois no nosso Natal elas são meio que onipresentes. Só tem um probleminha: é preciso estar atenta ao fritá-las, pois para ficarem boas devem aparentar uma cor dourada e não queimada - o que pode acontecer rapidamente se a quentura do óleo passar do ponto. E depois há aquele cuidado em deixá-las descansando sobre papel absorvente para reduzir o excesso de gordura... o que pede paciência. Pois a nossa receita suprime esse passo, a fritura, já que é preparada no forno. Pode experimentar sem medo de errar. E Natal brasileiro tem de ter rabanada, bem mais que panetone ou peru. Uma herança portuguesa, com certeza, já que veio com a corte de Dom João VI a tradição dessa guloseima de datação muito antiga em Portugal, onde são chamadas “fatias de parida”. Por que tal nome? É que nas terras lusitanas fazem parte até hoje da dieta das mulheres que dão à luz, assim como a canja de galinha. Dizem que ambos são pratos muito protéicos, ajudam no aleitamento. Sendo corriqueiras por lá, não têm entre eles o destaque brasileiro, onde aparecem em quase todos os cardápios de festas de fim de ano. Agora a minha estorinha. Estava na praia numa véspera de Natal e nesta época sabe-se como fica qualquer praia brasileira - aquele tandepá. Um desgaste, com fila pra tudo quanto é lado pra comprar qualquer coisinha, a começar pelo pão nosso de cada dia. Revezávamos para obter pão francês fresquinho, este hábito tão arraigado entre nós. Chegada a minha vez, lá fui, olhando de cara amarrada a longa fila, a dobrar o quarteirão, me perguntando se valeria a pena esperar. Se fosse só por mim iria embora, pois todos os que me conhecem sabem que não sou a mãe da paciência. Faria umas torradas com pão de forma, ou tentaria uns bolinhos de chuva. Mas trato era trato e eu havia me comprometido a levar pão fresco para os que me esperavam. Foi aí que conheci a Antonieta, mulher gordinha, baixinha e bem-humorada que puxou prosa perguntando de onde eu era. A Antonieta era de Itapetininga e bastou começar a falar para eu perceber que ela gostava de cozinha. Conversa vai, conversa vem, porque se a gente conversa a fila parece que anda mais rápido, a Antonieta me disse que iria comprar mais pães que o habitual porque guardaria seis para fazer rabanadas. E disse a palavra com um jeito tão saboroso, com aquele sotaque da gente de Itapetininga, que eu não resisti e lhe perguntei como seriam as suas rabanadas, já que as minhas sempre encharcavam. Foi então que aprendi a fazê-las do jeito que agora vou explicar a você. Assim. Unte um pirex com margarina. Corte os pães em rodelas grossas. Coloque as rodelas de pão uma ao lado da outra ocupando o fundo da forma. Bata no liquidificador uma lata de leite condensado, uma lata de leite de vaca, um vidro de leite de coco, quatro ovos, uma colher de sopa de fermento em pó. Despeje esta mistura sobre os pães e espere meia hora para que fiquem bem amolecidos. Se achar prudente, molhe com mais um pouquinho de leite. Leve ao forno e deixe ficar dourado. Retire, polvilhe açúcar e canela, sirva quente. “Antonieta” batizou as rabanadas reinventadas. E assim nunca mais as fiz fritas. Valeu a pena ter persistido naquela fila.

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