Falta gestão!


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O consultor internacional Zdenek Pracuch falou esta semana aos jornalistas do GCN e a lideranças do setor coureiro-calçadista sobre a crise internacional. Foi taxativo: “há empresas em Franca que já morreram e ainda não sabem”. O alerta, vindo de alguém como ele, tem que ser entendido como comunicação definitiva, mas prefere-se fazer ouvidos de mercador. Há também, dentre lideranças brasileiras do setor, quem o entenda velho e superado. E existem ainda os que dizem que ele “se fosse mesmo tão competente, teria sua própria indústria de calçados; e essa teria que ser a melhor indústria de calçados do mundo”. Então, vamos lá: Pracuch é um sapateiro – como gosta de ser chamado – diferenciado. Tem 81 anos, mas aparenta 60, menos do que já dedicou de sua vida ao setor calçadista: 67 anos. Dirige seu próprio carro – um Maverick 73 azul, seis cilindros em estado de zero, adquirido naquele ano e cuidado com rigor – que, mesmo podendo, não troca por um novo, primeiro porque gosta de carro antigo e, segundo, porque já testou e nenhum lhe dá o conforto de “sofá” em viagens semanais que beiram os 2,5 mil quilômetros entre a cidade onde mora - Itajubá (MG) - e Franca, Nova Serrana, Belo Horizonte, Jaú, Birigüi e onde mais o chamem para sorverem de sua experiência e capacidade analítica sobre processos de produção, administração, vendas e visão do mercado global. Fiz ao shoemaker a pergunta que evitam lhe fazer em ocasiões públicas: “por que não tem uma fábrica?”. E ele: “recebi dezenas de convites de capitalistas para tal. Montariam tudo, na dimensão que eu indicasse e eu entraria apenas com o trabalho, mas nunca aceitei. Não tenho perfil para permanecer preso à produção o dia todo, primeiro a chegar e último a sair, porque me conheço. Se tivesse optado por isso não teria dedicado 67 anos ao ofício e já teria parado. E não quero parar”. Pracuch integra uma teia mundial de relacionamento, formada por profissionais gerados pela indústria que se considera a maior do mundo na fabricação de calçados – a Bata, nascida da Tchecoslováquia, hoje com sede em Toronto, no Canadá, produzindo centenas de unidades espalhadas em vários países, cerca de um milhão de pares de calçados por dia –, por gestores, designers e até sapateiros. Chama a rede de “sismógrafo”. Quando “algo treme em qualquer parte do mundo, fico imediatamente sabendo”. É um cidadão global, usuário de mídias em tempo real, capaz de analisar empresas do setor com base em “gramas, milímetros e segundos”, como aprendeu com seu principal guru, Thomas Bata. E, porque prevê, há quem o considere catastrofista. Diz que é, isto sim, realista. “O problema é que ainda existem empresários que pensam que o mundo, com base em Franca, começa em Batatais e acaba em Rifaina”. Reafirma sempre que, “quando os chineses respiram – são 1,4 bilhão de pessoas –, pode-se pensar em furacões em qualquer parte do planeta”, metáfora que utiliza para garantir que, neste terceiro milênio, falta de visão global e de planejamento estratégico derrubam, inclusive, negócios que estavam consolidados. Não levá-lo a sério significa produzir pérolas como “não há crise. E se houver, ultrapassaremos como sempre fizemos”. Ele diz que é preciso planejar. Reduzir as perdas. Enquadrar o erro. Antecipar estratégias. E diz também que Franca faz calçado de couro de categoria mundial capaz de concorrer com os italianos em qualquer vitrine. A equação, então,fica fácil de ser compreendida: falta gestão! E quem não acreditar que a crise financeira e de cabeças é séria, perecerá com a boca cheia de formiga. GOLAÇO Conversamos, Abdala Jamil Abdala, presidente da Francal Feiras, e eu, dias antes do evento que o GCN promoveu com Pracuch esta semana. Na ocasião, o executivo disse que viria "de qualquer jeito" porque "não poderia perder a oportunidade da discussão sobre os efeitos da crise internacional sobre a indústria calçadista francana". Aqui, ouviu o painelista e, ao pegar o microfone, cunhou frase que certamente lhe garantirá contestação e apoio em igual medida nos próximos tempos: "os calçadistas francanos são os mais retrógrados que conheço. Infelizmente!". Quem conhece Abdala sabe que ele sempre optou por palavras adequadas para não ferir parceiros. Desta vez, não. Com a experiência de quem já foi industrial de calçados e com a convicção de que era preciso aproveitar o momento para fazer algo para balançar a cadeia coureiro-calçadista francana frente ao que se avizinha, chutou de bico. E acertou o ângulo. SAIA-JUSTA Élcio Jacometti, vice-presidente da Abicalçados também esteve no auditório que ouviu Pracuch. Ao usar a palavra, tentou uma meia brincadeira com o consultor dizendo que "na Grécia Antiga mandavam matar quem comunicava más notícias". Pracuch devolveu de pronto: "nesta altura da vida continuar vivo é o que menos me preocupa" e emendou afirmando que não deixará de dizer o que os empresários precisam ouvir. Para aliviar a tensão que se seguiu, Élcio deu razão ao consultor sobre cobrar melhoria urgente dos processos de gestão industrial. E que as empresas tinham que continuar sendo amadas por seus condutores como seus negócios de vida. Lembrou, para ilustrar, de frase referencial de seu pai, "venda a casa que a indústria lhe proporcionou se isso for necessário, porque terá de volta em dobro". E concluiu: "divergimos, mas representamos amor pelo setor". Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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