A crise financeira que assola os mercados do mundo inteiro não afeta apenas investidores, banqueiros, industriais, comerciantes e governos. Até quem está na ponta mais frágil do mercado sofre.
Catadores de materiais recicláveis em Franca tiveram seus rendimentos reduzidos em dois meses. A Pastoral do Menor e da Família, que coleta e processa reciclados, vai demitir funcionários. A Cooperfran (Cooperativa de Catadores de Recicláveis de Franca e Região) só tem R$ 4 mil para dividir entre os 35 cooperados. O proprietário do maior ferro-velho de Franca, Romildo Garcia Vila, 50, demitiu 17 dos 44 empregados. “Esta é a pior crise em anos”, disse. Tudo provocado pela redução nos preços pagos pelos produtos reciclados.
Com a economia estagnada por causa da crise, as fábricas cortaram parte da produção e reduziram a aquisição de matérias-primas, atingindo diretamente quem precisa vender recicláveis. Com muita oferta e pouca procura, os preços despencaram nos últimos dois meses.
Em outubro, o ferro-velho do Romildo pagava, em média, R$ 0,38 pelo quilo do papel. Esta semana o preço chegou a R$ 0,05, 87% menos. Ferro foi outro produto com forte baixa. Há dois meses, o quilo custava R$ 0,38. Caiu para R$ 0,10.
Símbolo da reciclagem, as latinhas de alumínio acumulam perdas de 40%. Em outubro, o quilo era comercializado por R$ 3,30. Nesta semana, chegou a R$ 2 e a previsão é de que feche o ano em torno de R$ 1,50, o quilo.
Com 44 anos de experiência no ramo, Romildo Vilar começou a sentir os efeitos da crise no início de outubro. Aos poucos, os pedidos de materiais feitos pelas indústrias foi minguando. Sem outra alternativa, Romildo passou a oferecer descontos, mesmo assim os resultados foram pequenos, agora, sem alternativa, decidiu demitir 17 funcionários. “De outubro em diante, os preços caíram como nunca havia ocorrido antes”.
Segundo ele, o mercado vive uma incerteza. “Hoje eu compro do catador por um preço e, na hora de vender para a indústria, o preço está menor”. Ele citou as bolsas de valores ao tentar resumir o que acontece com os recicláveis. “Se elas sobem, os preços das sucatas sobem. Se ela cai, o mesmo acontece no nosso setor”.
A demissão de 17 funcionários foi a primeira providência de Romildo para driblar a crise. “Tinha 44 empregados. Estou com 27. Trabalho para não demitir mais ninguém. Mas a gente nunca sabe o dia de amanhã”. Para o experiente comerciante, se houver melhoras, só após o Carnaval.
Na Cooperfran, a crise atingiu os negócios de 35 famílias de catadores. Acostumada a arrecadar, em média, R$ 17 mil mensais, a cooperativa, até ontem, tinha R$ 4 mil em caixa para dividir entre os cooperados.
Na Pastoral do Menor e da Família, a situação também é crítica. A entidade precisou vender o único caminhão usado na coleta para pagar os direitos trabalhistas de três, dos seis funcionários, que serão demitidos na próxima semana.
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