Cigarras na crise


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A fábula “A Cigarra e a Formiga” é mundialmente conhecida. Atribui-se sua autoria ao grego Esopo, e por mais remota que seja, é cada vez mais atual revelando o comportamento imprevidente das cigarras diante das adversidades que a vida pode reservar, enquanto a outra personagem, uma formiga, é diligente e cerca-se de cuidados para sobreviver ao tempo que poderão sobrevir as dificuldades. Alegoricamente, a narrativa convida à reflexão que propiciará maior compreensão de algumas leis que não dependem de nenhum tipo de negociação, ou de mera interpretação, no caso, as estações que dividem o ano determinando o clima e influenciando diretamente na natureza, leis às quais todos os seres viventes estão sujeitos. Podemos então começar a definir o perfil das personagens da histórica fábula começando pela cigarra: escolheu cantar se exibindo a todos os animais do reino, regalando e se regozijando durante o período que antecede o frio implacável do inverno, deixando patente a negligência, a insensatez, e sua flagrante imbecilidade frente às responsabilidades para manutenção da própria sobrevivência. Por outro lado temos a formiga, que também fez sua escolha, optando pelo caminho inverso, criando estratégias e praticando a parcimônia (ato de poupar) tendo em vista assegurar reservas para momentos de instabilidades que lhe garantirão condições de sobrevivência em períodos críticos como de um severo inverno. A ficção trazida pela fábula permite realizar algumas analogias da atual conjuntura vivida atualmente no Brasil, onde comportamentos semelhantes ao de “cigarras” possuem alguns de nossos governantes, eles que demonstram falta de disposição em contribuir com a realidade em suas declarações públicas sobre a crise global. Desde o anúncio oficial da crise e dos pronunciamentos do ministro da Fazenda, Manteiga (com ‘i’ mesmo), fizeram derreter por completo a confiança de milhões de brasileiros pela falta de seriedade e comprometimento no emprego da verdade. Tentou-se sempre adotar discursos frios recheados de tecnicismos encobrindo a real gravidade dos fatos, sugerindo coletivo relaxamento de “cigarra” à população. Como se não bastassem os rodeios e as falácias proferidas a “plenos pulmões” pelos prepostos do presidente Lula, apelou-se para outro artifício: o de superestimar a economia brasileira, chegando a afirmar que essa cresceria em torno de 6% em 2009, o que após ser “desmentido” pela ONU recuou o ministro Manteiga, vergonhosamente, expondo todo um povo ao descrédito internacional. O espírito pernicioso de “cigarra” parece estar possuindo mesmo o Planalto. E é também de lá que têm saído conceitos desastrosos de estímulo ao “consumismo” que endividará mais ainda o povo brasileiro, comprometendo o orçamento doméstico. O prenúncio impiedoso de grave recessão que se instala no Brasil não é mais segredo de poucos... Enquanto isso nossos governantes continuam pregando que cantemos e consumamos - ignorando o amanhã - tentando fazer de nós cigarras quando o frio do inverno já pode ser sentido... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

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