Dezembro é um mês mágico em nossas vidas, a chance que todas as pessoas têm para reconstruir e aguardar com ansiedade a nova vida que se inicia com a chegada de mais um ano.
Mês de trânsito enlouquecido, de tempo voando, de providências urgentes. Época de enfeitar as portas com festões e a frente da casa com luzinhas piscantes. Mês de presentes, comidas e Missa do Galo.
Embora essa seja a nossa maior lembrança, infelizmente para muitos esse conto mágico não acontece. Milhares de pessoas vivem em condições precárias e fazem do mês de dezembro apenas um meio de obter um pouco daquilo que não conseguem ter o ano inteiro.
Outro dia, caminhando pelo centro da cidade, observava os movimentos frenéticos daqueles inconstantes personagens da vida real. De repente, senti um leve cutucão na perna. Uma mão pequenina tocou-me com certo acanho. Era uma criança de pele morena clara e cabelos sujos em pequenos caracóis, pés descalços, aparentando sete anos de idade.
Pediu-me com voz encolhida que lhe desse um trocado. De imediato pensei nos pais, certamente dois crápulas embriagados, inconscientes, que uniram suas genitálias para um prazer imediatista que, na conseqüência, brotara um ser que respira, se veste e come e ainda se esqueceram que nesta arena canibalizada pelos dentes do vil metal quem não produz não pode consumir.
O monólogo silencioso injetou um vazio entre o pedinte e o juiz que precisa julgar a sentença sem aumentar o sofrimento da vítima. Voltei a mim, vendo sua pequena expressão de incredulidade pelo meu semblante irritado.
Perguntei onde estavam seus pais; disse-me que sua mãe estava em casa e o pai ele não sabia, mas suas irmãs estavam num supermercado caçando verduras para o almoço. Conversamos como se fôssemos dois adultos ou um padre com o fiel na sala de confissão. De um trocado que pediu lhe ofereci um lanche numa pastelaria, aumentando sua confiança em mim e minha ira diante de tanta falta de zelo dispensado a essas indefesas figuras.
Veio-me o número alarmante de assaltos e assassinatos seguidos das lindas oratórias de autoridades que não agem na raiz do problema.
Ao invés de prevenção vão remediar quando o paiol já estiver em atividade. Deixei o pequeno Hugo seguir sua sina, após matar sua fome e dar-lhe um chinelinho que ele logo calçou, conseguindo arrancar-lhe um sorriso de felicidade efêmera. Para uma criança assim, o que pesa, o que é importante é o presente, seja ele bom ou mau, tranqüilo ou conturbado. É preciso aguar essa plantinha que anda sequiosa na sequidão deste chão. Os frutos dela que virão amanhã são de responsabilidade de todos.
De volta à praça, sentei-me num banco. Em segundos aproximou-se um senhor de idade avançada, olhos remelados e uma bengala na mão, que servia de apoio, pedindo pelo amor de Deus que lhe desse uma ajuda. Balancei a cabeça e, com o coração partido, me levantei por não saber o que dizer.
FRASE
Para ajudar seus filhos a se darem bem na vida, passe com eles o dobro do tempo e gaste com eles a metade do dinheiro.
CARTÕES A COBRAR
Estão começando a chegar os cartões natalinos a cobrar, aqueles enviados pelos políticos. Eu digo a cobrar porque somos nós, contribuintes, que pagamos as despesas postais de vereadores, deputados, senadores, prefeitos.
ALGUÉM DUVIDA?
Informações extra-oficiais dão conta de que o novo formulário do Imposto de Renda da Pessoa Física terá no próximo ano apenas quatro itens. No primeiro a vítima deve informar quanto recebeu no ano passado. No segundo, quanto gastou para sustentar a família. Terceiro: informar quanto sobrou. E, por fim, no quarto quesito, a determinação: ‘Passe tudo pra cá’.
NEGATIVO
A tragédia catarinense está fazendo emergir dois extremos da sociedade brasileira que merecem a reflexão dos cidadãos e a ação das autoridades. De um lado, saques, inflação nos preços e vigaristas que se valem do momento crítico para tirar vantagem, ampliando os tons sombrios da catástrofe. De outro, uma imensa rede de solidariedade que, despertando os melhores sentimentos, se estende a todo o país e mobiliza diversos setores da sociedade. Os saques, ao surgirem, mostraram tanto a gravidade do quadro assistencial quanto o colapso de todos os serviços. E a presença dos exploradores mostra que, nesses momentos, também se abre espaço para os que cultivam a maldade e se aproveitam da infelicidade a-lheia para obter benefícios pessoais.
POSITIVO
Pelé está provando do próprio veneno. Desprezou a filha que teve fora do casamento, desconheceu Mané Garrincha, não fala com Coutinho, não poupa o Romário de comentários maldosos, agora viu a resposta da Assembléia Legislativa de Alagoas, que propôs mudar o nome do Estádio Rei Pelé para Rainha Marta, alagoense e grande jogadora do futebol feminino. Pelé, que nada fez por Alagoas, mereceu. Será que a essas alturas da vida calçará a sandália da humildade? Duvido. Pau que nasce torto até a cinza é torta...
`DIPROMA`
O velho fazendeiro do interior de Minas está em sua sala, proseando com um amigo, quando um garoto passa correndo por ali. Ele chama:
- Diproma, vai falar para sua avó trazer um cafezinho aqui pra visita!
E o amigo estranha:
- Mas que nome engraçado tem esse menino! É seu parente?
- É meu neto! Chamo esse moleque assim porque mandei minha filha estudar em Belzonte e ela voltou com ele!
Edward de Souza
Jornalista e radialista - edward@comerciodafranca.com.br
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