“Se os senhores vieram até aqui esperando que eu apontasse uma solução para a crise, sinto decepcioná-los, mas eu não a tenho”. Foi com esta fala que o consultor para a área calçadista e colunista do jornal Comércio da Franca Zdenek Pracuch abriu sua palestra ontem de manhã no auditório do Grupo Corrêa Neves de Comunicação para um público de, aproximadamente, 70 pessoas entre jornalistas, convidados, empresários e representantes de entidades do setor. O evento foi mediado pelo diretor-executivo do GCN, jornalista Corrêa Neves Júnior.
Na platéia, entre outras lideranças, estiveram os presidentes do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), da Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca), da Fenafic (Feira Internacional de Couros, Máquinas e Componentes para Calçados), da Francal Feiras e do Sindicato dos Sapateiros de Franca, respectivamente José Carlos Brigagão, João Cheade, Arsênio de Freitas, Abdala Jamil Abdala e Paulo Afonso, vereador eleito pelo PT.
Por mais de 90 minutos, Pracuch, 81, falou da crise financeira mundial e de como potências empresariais estão ruindo em questão de semanas. Em pé durante todo o tempo, o consultor, nascido na antiga Checoslováquia, chamou a atenção para a gravidade da situação que engloba nações e corporações. Assumidamente inexperiente em palestras, dividiu o tempo do evento com abordagens sobre o mercado chinês, dando destaque negativo para a atuação dos fabricantes de calçados de Franca.
Com fama de “catastrofista” e pessimista, Zdenek Pracuch tratou logo de estabelecer uma linha de analogia que é impossível não reconhecer como verdadeira, queiram ou não seus críticos. Naquilo que chamou de “darwinismo” empresarial, citando a célebre frase de Charles Darwin, cientista autor da Teoria da Evolução, o consultor foi direto: “apenas os mais inteligentes e versáteis vão sobreviver”.
Ao analisar a deflagração da crise que já sinaliza com depressão e não mais apenas recessão - mais de um trimestre com índices econômicos inferiores ao período anterior - em algumas economias mundiais, Pracuch disse que muito antes do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, tida como a responsável pela derrubada dos mercados, já era possível prever que a economia global estava à beira de um colapso.
Como exemplo, citou os índices da Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo, e as seguidas altas do preço internacional do barril do petróleo. “Estávamos lidando com dinheiro que nunca existiu. A Bovespa chegou aos 70 mil pontos, enquanto a economia brasileira avançou muito pouco. O preço do petróleo disparou sem que houvesse diminuição da produção ou aumento do consumo”, citou ele. “Tudo isso estava assentado sobre dinheiro virtual”.
A CRISE EM FRANCA
Grande parte da palestra foi reservada para uma análise inclemente da indústria calçadista francana, leia-se empresários francanos, a quem Zdenek Pracuch preferiu chamar de donos de empresa. Segundo ele, as indústrias locais estão em uma curva descendente, com produção mediana e modelos de gestão estacionados nas décadas de 1950 e 60. São produtos sem nenhum valor, colocados no mercado a partir de métodos desastrosos de gestão.
Como exemplos bem-sucedidos citou o exemplo do parque industrial de Nova Serrana (MG). Criado há cerca de 20 anos, empresários locais devem conseguir no início do ano que vem obter a marca de até 50 minutos entre o corte do modelo e o despacho do pedido. “Em Franca, esse mesmo processo não leva menos de 20 dias. Por que isso acontece? Porque lá é uma indústria nova, sem vícios, com cabeça aberta e disposta a inovações”.
O consultor seguiu com suas alfinetadas nos empresários dizendo que quase todos eles passam metade do ano pensando na Couromoda e a outra metade na Francal (duas das principais feiras do setor) e, no meio delas, não pensam em mais nada. “A esses donos de empresas, não empresários, falta tudo, especialização, rumo, planejamento”, disse seguindo com outro exemplo vindo da cidade mineira: “Nas empresas de Nova Serrana é possível saber como está o faturamento mensal, porque planejamos nesse período. Aqui há um prego na parede para contas a pagar outro para contas a receber. Se perguntar quanto foi o faturamento, ninguém sabe. Muita empresa já fechou e o dono não sabe”.
Ao responder a um questionamento do mediador Corrêa Neves Júnior, Pracuch deu bem a dimensão de como vê o empresariado francano. O jornalista levantou a coincidência que cerca o fechamento ou o fim inglório de tantas empresas montadas em prédios suntuosos e belos jardins, em claro indício de ostentação. “Esse pessoal não entende que uma fábrica é feita de milímetros, gramas e segundos e não de desperdício. Fábricas assim, com seus tapetes grossos na diretoria, são demonstrações clara de ostentações que escondem uma gestão falha. São detalhes que nossos empresários não praticam porque estão muito preocupados com seus ranchos em Rifaina”.
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