Elas têm até cem funcionários, faturamento máximo de R$ 2,4 milhões anuais e a responsabilidade de empregar quase 90% dos sapateiros de Franca. Pela Rais (Relação Anual de Informações Sociais) de 2007 do Ministério do Trabalho (MT), as micro e pequenas empresas calçadistas da cidade empregam nove de cada dez trabalhadores do setor. São 1.619 estabelecimentos de um total de 1.647 empresas formais registradas no MT. Ao todo, o número de empregados em fábricas de pequeno porte chega a 16.976 pessoas.
Para Agnaldo Souza Barbosa, professor pesquisador e coordenador do Ceder (Centro de Estudos de Desenvolvimento Regional) da Unifran, isso acontece porque Franca vive um fenômeno singular de fechamento de médias e grandes empresas, o que gera uma expansão de novos empreendedores, muitos até sem “base” para se tornarem empresários. “É um fenômeno que marca Franca de forma singular, pois em outros setores você não vê operários de chão de fábrica se tornando fabricantes, empreendedores da linha de frente de mercado”.
Barbosa disse também que a existência de muitas empresas de micro e pequeno porte significa fragilidade no mercado de trabalho. “Franca não tem uma estrutura de amparo ao micro e pequeno, então o empresário trabalha no curto prazo, em dinâmica de improviso, sem deslumbrar o que será sua empresa nos próximos anos. Está sempre à mercê do mercado, o que coloca em risco quase 20 mil empregos”.
Paulo Afonso Ribeiro, presidente do Sindicato dos Sapateiros de Franca e Região, levanta outro problema gerado pela concentração de mão-de-obra nas micro e pequenas indústrias: a alta rotatividade de empregados e a falta de planos de carreira. “A maioria dispensa e contrata muito e isso é ruim, pois não fixa o trabalhador. Além disso, dificilmente elas possuem organização suficiente para estruturar planos de carreira ou pagar salários mais altos”.
O Sindicato dos Sapateiros diz ter 1.800 empresas calçadistas em seus sistema de dados, porém não consegue informar quantas são micros e pequenas.
Para Antônio Carlos Coutinho, diretor de comunicação do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), não foi apenas a crise das grandes empresas da cidade que impulsionou a concentração de mão-de-obra nas micro e pequenas fábricas de calçados. “Os incentivos dados pelo governo para o pequeno empresário e o sonho de ter um negócio próprio alimentado por muitos trabalhadores não podem ser desprezados”, disse.
Segundo ele, a abertura de indústrias de pequeno porte é um fenômeno antigo. “Desde a década de 40, trabalhador vê o sucesso do empresário e resolve abrir o seu próprio negócio. Como ele detém o conhecimento da produção, ele deixa de ser funcionário e passa a ser o fabricante”.
Para Iroá Arantes, gerente regional do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa) de Franca, apesar da fragilidade das indústrias de pequeno porte, não se pode ignorar seus méritos. “Para a economia de Franca, elas se tornaram fundamentais. Foram as micro e pequenas fábricas que absorveram a mão-de-obra dispensada pelas grandes indústrias e ainda conseguem manter os negócios aquecidos”.
COMPARATIVO
Se em Franca as empresas de pequeno porte dominam o setor calçadista e os empregos nele gerados, em outros pólos, como Birigüi (SP) e Novo Hamburgo (RS), essa porcentagem de micros e pequenas empresas é bem menor, não ultrapassa os 60%. “Nesses pólos, os negócios do setor estão mais bem estruturados, em empresas mais sólidas, administradas de forma mais profissional que em Franca. Sem contar, que poucas são familiares”, disse Barbosa.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.