Eu sou, eu fui, eu vou


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O título mostra exatamente um dos versos da música Gita (lê-se guita), de Raul Seixas. No geral, a letra foi inspirada no Bhagavad-Gitã, que é um trecho do Mahabarata, uma espécie de ‘Bíblia’ da religião hindu, codificada por Krishna. No texto original, um guerreiro pergunta ao guru qual é o seu (de Krishna) significado. O guia espiritual usa então uma série de frases comparativas para responder, dentre elas, destacam-se estas: ‘...dos peixes, eu sou o tubarão; dos enganadores, eu sou o jogo de azar; das letras, eu sou a letra A...’. Raul Seixas, com sua peculiar genialidade, apoderou-se do multifacetado verbo ‘ser’, para adaptar o Bhagavad-Gitã e criar várias possibilidades de existência, no decorrer da letra de Gita. Em ‘Eu sou, eu fui, eu vou’, à primeira vista, parece ter ocorrido a troca de sentido da última ação (ir), se analisada pelo fator temporal: sou (primeira pessoa do verbo ser, no presente do indicativo), fui (primeira pessoa de ser ou ir, no pretérito perfeito do indicativo) e vou (primeira pessoa de ir, no presente do indicativo). Agora, filosofando com sinônimos: sou (existo, vivo), fui (morri, não existo mais), vou (quer dizer então que voltei, isto é, sou de novo). Complicado, não? Mas, relacionando mais dois versos posteriores: ‘Eu sou, eu fui, eu vou / O pai, a mãe, o avô / E o filho que ainda não veio’, surge a idéia de que o ‘vou’ não passa de uma parte da subentendida locução verbal ‘vou ser’ (serei), intimamente relacionada à idéia do ‘filho que ainda não veio’. Nos três versos, a idéia de família, de seqüência genealógica, fica patente, já que uma pessoa é o resultado do passado (o pai, a mãe – simbolizando a avó também – e o avô). Somente uma pessoa normal (sem discriminação nenhuma, por favor, pois dentro da normalidade, filho ainda nasce somente do relacionamento entre um homem e uma mulher, muito embora homem já tenha dado à luz por este mundo afora, só que isto é uma outra história) tem a possibilidade de vir a ter um filho, chegando assim à locução ‘vou ser’. Divagando, ainda mais. Para se viver muito é preciso viver devagar. No entanto, para muitos, parece não ser vantajosa a idéia de uma vida longa. A reportagem “À espera de ajuda”, assinada por Nelise Luques neste jornal, terça passada, mostra que 55 idosos esperam por vagas em asilos. A situação de penúria de quem atinge uma certa idade e não dispõe de um lar, também foi comentada com muita precisão na Objetiva do dia seguinte, neste Comércio. Ao contrário da cultura oriental, que valoriza a velhice e ao mesmo tempo demanda tempo especial no cuidado dos idosos, esta parte ocidental do mundo mostra-se muito pouco afeita em conviver com os mais velhos. A grande maioria das pessoas vive como se o tempo não passasse nunca, como se a juventude fosse eterna. E a verdade maior da vida é cristalina: não há juventude que não envelheça, a não ser que ela se perca antes pelo caminho. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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