Em janeiro de 2003, Karoline da Silva Feliciano, 9, passou por uma cirurgia na garganta e no ouvido; um procedimento aparentemente simples, mas houve complicações. Ela sofreu edema pulmonar, entrou em coma e teve morte cerebral. Coube à sua mãe, a fonoaudióloga Eliana Inácia da Silva, 44, sua irmã e seu pai enfrentarem a dor da morte e da decisão de doar os órgãos da criança. Depois de muito pensar e pesar a importância de seu ato, com a grande possibilidade de salvar vidas, a família resolveu dizer sim. Um ano depois da morte da filha, Eliana montou a ONG Recanto Girassol para incentivar doações e esclarecer o assunto.
Comércio da Franca -Foi difícil autorizar a doação dos órgãos de sua filha?
Eliana da Silva - Foi e muito. Relutei quando falaram que ela teve morte cerebral, na hora não queria falar sobre o assunto. Parece que com a decisão de doar estava abrindo mão da minha filha, aceitando a morte dela. Conversei muito com os profissionais da UTI para me decidir e fui trabalhando isso dentro de mim, durante os cinco dias que minha filha ficou internada. Lembro que eu ficava olhando aqueles aparelhos e chorei andando ao redor da cama. Mas aos poucos fui percebendo que poderia dar vida para alguém, evitar em outras pessoas o sofrimento que eu estava tendo naquele momento. A dor é muita intensa, mas se você pode fazer algo por alguém, tem que fazer.
Comércio - E como foi dizer sim?
Eliana - Não me arrependo da minha decisão. A sensação de ajudar a salvar é indescritível. Eu sempre falava que doaria meus órgãos se eu morresse, mas não sabia porquê. Numa dessas conversas, 15 dias antes de partir, a Karol falou que também doaria. Tinha medo de doar e acabar de matar, mas a fala dela me ajudou muito.
Comércio - Como estão os trabalhos da ONG Recanto Girassol?
Eliana - A ONG está com as atividades um pouco paralisadas, pois tive um outro filho, que hoje está com três anos e estava me dedicando a ele, mas vamos retomar o projeto com as palestras nas escolas e a criação de um site com jogos sobre saúde, cidadania e a própria doação.
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