A vida após um transplante


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RENASCIMENTO - A dona de casa Diva Faleiros Cintra esperou três anos e meio na fila de transplantes para conseguir um fígado e hoje comemora o sucesso da cirurgia
RENASCIMENTO - A dona de casa Diva Faleiros Cintra esperou três anos e meio na fila de transplantes para conseguir um fígado e hoje comemora o sucesso da cirurgia
Novembro de 2003. Madrugada. O relógio marcava 1 hora quando o telefone da dona de casa Diva Faleiros Cintra, 59, tocou. Ela e o marido haviam acabado de chegar de São Paulo, onde tinha feito exames periódicos. Do outro lado da linha, uma funcionária do Hospital Albert Eistein, na capital, deu a notícia que o casal e familiares esperavam há três anos e meio. Uma pessoa havia morrido, a família autorizara a doação de órgãos e o fígado era compatível à Diva. Mas ela e o marido tinham pouco tempo para retornar a São Paulo. Se demorassem mais de cinco horas, o órgão seria repassado para outra pessoa. Foi uma corrida contra o tempo e pela vida. Diva e o marido, Wanderley Cintra, fizeram o trajeto de 400 quilômetros em três horas e meia. “Fiz a viagem tranqüila, confiante. Desde o começo rezei muito e me entreguei nas mãos de Deus. Pedia muito para suportar tudo”. Os dois chegaram ao hospital às 6 horas. Uma hora depois, Diva estava na sala de cirurgia. Foram oito horas de operação, três dias de UTI, dias internada. “Ficamos um mês em São Paulo, na época do Natal. A Diva operou no dia 16 de novembro”, disse Wanderley. Ela não sabe quem doou o órgão, mas sempre reza pela pessoa e sua família. “Agradeço todos os dias pela minha vida, me coloco nas mãos de Deus e rezo pela pessoa que me salvou. Fico pensando que se não fosse a família do doador eu não teria esse fígado novo. Foi através deles que pude renascer”. Aos 17 anos, Diva descobriu que tinha sério problema no intestino. Com o tempo, a doença ficou crônica e atingiu o fígado. Em 2000, após meses de exames, descobriu que estava com colangite esclerosante primária, uma doença rara que impede o funcionamento do fígado. A única solução era o transplante. Quando soube disso, Diva sofreu muito. “Jamais esperava passar por isso. Foi um momento duro para mim. Perdi o chão. Chorei muito. Mas tive de aceitar e pedir a Deus que me desse força para continuar”. Neste mês, fez cinco anos que passou pelo transplante. Ela tem uma rotina ativa. “Tenho de ter alimentação regrada, mas já tinha essa vida pelos problemas no intestino, então não mudou muito. Não deixo me abater e procuro sempre preencher meu tempo com academia, voluntariado, cuidando dos meus dois netos e rezando”. Diva não pode doar seus órgãos em decorrência dos problemas de saúde, mas espera que seus familiares cumpram o ato e solidariedade por ela. “Eu não posso ser doadora, mas meus dois filhos e meu marido podem e eu ficaria muito grata se no fim da vida deles, eles pudessem doar algum órgão”. É UM RENASCIMENTO Como Diva, tantas outras pessoas enfrentam a “morte” de órgãos vitais e só têm a chance de sobreviver se passarem pelo transplante. O caminho é duro, complexo e cheio de incertezas. Essas pessoas enfrentam uma batalha sem saber se terão um final feliz, sempre lembrando que mesmo com todo sacrifício, pode haver mortes. A dona de casa Maristela Rodrigues de Faria, 41, também teve medo de morrer, pois seus rins chegaram a ficar com apenas 10% da capacidade de funcionamento. Mas como na vida de Juliana, um ato de amor permitiu deixá-la viva. No dia 15 de dezembro de 2007, ela e o marido foram internados no Hospital do Rim, na capital, para o transplante. Ele doou o órgão para ela. “Foi uma prova de amor muito grande. Não sei se faria o mesmo, é muito difícil”, disse ela, que chegou a ficar na fila de doações. [FOTO2] Maristela tinha muito cansaço e pressão alta. Achava que estava anêmica, mas após exames descobriu que tinha nefrite, um problema nos rins. Ela precisou fazer hemodiálise. Durante dois anos e quatro meses, viveu quatro horas por dia, três vezes por semana, ligada à uma máquina, para filtrar seu sangue. “Foi muito sofrido. Tinha dias que eu achava que não ia voltar”. A dona de casa está bem, tem vida ativa, mas disse ter receio do futuro. Ela prefere aproveitar ao máximo o presente. “Receio do futuro. Nunca é 100% de segurança. Posso estar bem e de repente ter uma complicação. Procuro viver o hoje. Mas muito mudou na minha vida. Eu era alegre, feliz, mas a hemodiálise acabou com isso. Só agora estou voltando a viver de verdade. Vejo o mundo com mais vigor. Enfrento os problemas com mais facilidade”.

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